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Domingo, 6 de Julho de 2008

História do Século XX

 

Chamaram-lhe o século do Povo. Eu chamo-lhe o século do Horror. Iniciou-se do mesmo modo como terminou, em estado de "Belle Époque". No início do século foi a Revolução Industrial, a que se somou o progresso tecnológico, a melhoria das condições de vida da população, o luxo, a ostentação das classes abastadas, o dogma da paz eterna entre os povos. Como se enganaram!

Reinava a convicção que já se tinha inventado tudo. As empresas de registo de patentes começaram a fechar porque considerava-se um negócio obsoleto. Já tudo tinha sido inventado! Thomas Edison, o célebre inventor da lâmpada, chegou a afirmar que já pouco havia para inventar. Não poderia estar mais enganado.

No final do século, a queda do muro e a subsequente implosão da URSS afastou definitivamente o espectro da III Guerra Mundial que Salazar sempre julgou inevitável (caso contrário nunca teria embarcado numa Guerra Colonial que saberia que não poderia ser vencida com armas na mão).

No entanto tanto no início como no fim do século houve algo que marcaria o fim do "Estado de Graça", uma espécie de "canto do cisne". O afundamento do Titanic, seguido da Guerra dos Balcãs e finalmente a Grande Guerra deitaram por terra o optimismo reinante.  Noventa anos mais tarde uma nova Guerra na Península Balcãnica e o exacerbamento do radicalismo islãmico veio novamente acabar com as nossas ilusões pacifistas.

O principal momento estruturante do século foi, na minha opinião, a I Guerra Mundial. Desde logo, porque a sua causa material haveria de desencadear uma nova guerra ainda mais sangrenta 21 anos depois. O pretexto para a Guerra foi o assassinato do Arquiduque Francisco Fernando, em Sarajevo,  capital da Bósnia Herzegovina então sob o domínio do Império Austro-Hungaro. Chamo-lhe pretexto, porque o próprio imperador Francisco José se regozijou com a morte do seu (quinto) sucessor. As razões para este macabro sentimento prendem-se com o seu casamento plebeu, que terá desagradado ao Imperador.

As causas reais são bem diferentes. A Alemanha de Guilherme II (que esteve em portugal a convite do Rei D. Carlos) chegou tarde à condição de potência. A unificação alemã, sob a égide da Prússia, teve lugar em 1870, pela mão de Otto Von Bismark. Para aspirar à condição de potência, precisava de estender os seus domínios, alargar o seu império colonial, e vencer o Reino Unido militarmente (a França tinha sido vencida em 1870), não obstante os laços de parentesco que uniam o Kaiser à coroa britânica. 

A Autro-Hungria dos Habsburgo, sua aliada, debatia-se com o espansionismo sérvio e precisava de uma oportunidade para os vencer e assim reassumir o controlo da Península Balcânica.

Os turcos, senhores de um vasto Império colonial, entraram quase involuntariamente no conflito. Ao permitirem a entrada de barcos alemães nos seus domínios, com condição de o fazerem com o pavilhão Otomano, levou a que os aliados lhe declarassem guerra.

Curiosamente, alguns dos maiores vultos do século XX foram intervenientes directos na I Guerra. Lenine encontrava-se na Austria exilado, tendo sido acolhido pelos Austriacos e enviado para a Suiça, de onde partiu, com o apoio da Alemanha, na sua viagem triunfal até à Estação Finlândia em Petrogrado, após a abdicação do Czar

Winston Churchill, esteve presente na Guerra como primeiro Lorde do Almirantado (semelhante a Chefe de Estado da Armada), cargo que abandonou após o fracasso nos Dardanelos, onde um chefe militar corajoso e respeitado, Mustafa Kemal "Ataturk", pai da Turquia moderna, teve o apogeu da sua carreira militar. Depois de uma passagem pela frente de batalha e pelo Parlamento, no final da Guerra ocupava o posto chave de Ministro das Munições.

Hitler, recusado no exército Austríaco por incapacidade física, alistou-se como voluntário numa campanha de recrutamento lançada na Baviera, tendo recebido várias distinções por bravura, algumas delas pouco comuns para alguém que ostentava as insígnias de Cabo. De resto, ficou momentaneamente cego depois de ter sido gaseado numa violenta batalha no Saliente de Ypres (Bélgica), já no ocaso da guerra.

Phillipe Petain, lider de um governo (fantoche) de Vichy durante a ocupação Alemã na II Guerra Mundial, era um dos principais comandantes do exército francês na I Guerra, tendo sido posteriormente condenado à morte (De Gaulle comutou-lhe a pena para prisão perpétua) por traição à pátria.

Mussulini, na altura um socialista convicto, era editor de um jornal pro-aliado, tendo tido uma intensa actividade panfletária. A Itália na I Guerra Mundial ficou do "lado certo da História", o que não aconteceria, sob o seu comando, duas décadas mais tarde.

Outros exemplos poderiam ser dados. Rommel combateu na frente Italiana, Douglas Mc Artur e De Gaule na fronteria franco-germânica etc.

À Parte da presença individual, a I Guerra marcou para sempre o velho continente.

O fim do Império Austro-Hungaro, levou à independência de Hungria e Checoslováquia, à anexação da Bosnia Herzegovina pela Sérvia, e à formação da Jugoslávia (em conjunto com  Eslovénia e Croácia).

A restauração da Polónia foi feita à custa da região da Galicia (Império Austro-Húngaro), da Prussia Oriental (Alemanha) e da Rússia, esta última numa guerra onde o exército vermelho foi derrotado pelo exército polaco entre 1919 e 1921.

O Imperio Otomano desaparece, sendo a Turquia de Ataturk a sua herdeira. A perda do vasto império que ia desde a Síria, passando pela Mesopotãmia, e Médio oriente, a favor das potências europeias, foi uma das primeiras medidas da recém formada Liga das Nações. Esta política de "mandatos" daria origem a varíadíssimos estados actuais, como sejam o Irão, Iraque, Síria, Líbano, etc.

A Alemanha, para além das perdas territoriais, viu-se obrigada a reparações "leoninas" aos vencedores, suprema humilhação que haveria de estar na origem da II Guerra. 

A História da Alemanha muda radicalmente com a Guerra. É proclamada a República, surgem correntes de extrema direita como reacção à falência do liberalismo e às privações da guerra. Um antigo cabo depois de golpes falhados (o putsch da cervejaria) consegue chegar ao poder por via eleitoral e vingar a humilhação alemã. Os seus alvos predilectos eram no exterior as potências vencedoras, ao nível interno os judeus. O seu anti-semitismo poderá ser explicado pela adesão desta comunidade às ideias socialistas-espartaquistas que minaram a confiança no exército alemão na I Guerra, onde se destaca o vulto de Rosa Luxemburgo.

Alguns contendores mudaram de campo face ao primeiro conflito, nomeadamente a Itália, Japão e Roménia, no entanto voltaram a ser os E.U.A a darem a vitória aos Aliados.

Churchill mantém um papel decisivo, como primeiro-Ministro, na liderança das operações de defesa do Continente.

Em 1945 a URSS, herdeira da Rússia Bolchevique, permanece na Guerra até ao fim (o que não ocorrera na guerra anterior) e ao "libertar" zonas de alguns paises sob jugo alemão, daria lugar à divisão do globo entre duas esferas de influência, ão que se convencionou chamar de Guerra Fria.

Este conflito só por bondade se poderá chamar de "frio", porquanto perecerem milhares de pessoas em paises terceiros, como no caso do Vietname e Coreia. 

O resultado da contenda volta a pender para o lado dos aliados, levando a Alemanha a uma nova humilhação. No entanto, se na I Guerra não tinham sido vencidos militarmente (a Alemanha só foi ocupada depois do fim da Guerra), em 1945 o país estava destroçado, com jovens imberbes a defenderem Berlim da invasão soviética.

Outro conflito que ainda hoje marca o nosso quotiiano é o diferendo Israelo-árabe. Ambos os povos têm raizes ancestrais naquele território.  Após a queda do Império Otomano, o mandato concedido pela Liga da Nações tornou o território palestiniano uma neo-colónia britânica. A atribuição de um lar para os judeus foi plasmada na célebre declaração de Sir Arthur Balfour, ainda antes do fim das hostilidades, em 1917.

Esta declaração haveria de ser "letra morta" até à década de 40, quando finalmente é criado um Estado judeu na sequência do sofrimento do povo semita às mãos do regime nazi. Com a criação de Israel, o movimento Sionista tinha finalmente re-adquirido a sua pátria. Como é conhecido, este acontecimento seria potenciador de um conflito regional, com repercussão à escala global, atingindo o seu zénite em 1967, na designada Guerra dos Seis Dias.

Outros conflitos se poderiam identificar, desde logo num continente africano, desenhado a regra e esquadro ao arbítrio dos interesses europeus, negligenciando afinidades religiosas, étnicas, tribais, etc, que vieram à superficie na era pós-colonial.

Nos despojos do Império Otomano, paises como o Irão, Iraque, Líbano e Síria, "inventados" no século XX continuam a ser focos de conflito, quer seja na sua relação com as minorias, ou no despoletar seu desejo expansionista motivado pela posse de matérias primas.

Contudo, a maior marca que fica do século XX é, a meu ver, a globalização. O aparecimento dos meios de comunicação de massa e o subsequente esbatimento de diferenças culturais, teve como consequência a harmonização de estilos de vida, e de comportamentos de consumo. Se a este facto somarmos o desenvolvimento da logística chegamos ao sonho de qualquer multinacional. Hoje, pode fabricar onde os custos são menores e vender em todo o planeta sem ter que alterar significativamente o produto. A disseminação de produtos culturais (Cinema, livros, música, etc.) favorece este fenómeno que não conhece nem limites nem barreiras.

Laissez faire, laissez passer!

publicado por Rui Romão às 16:57
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