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Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

Lisboa Camoniana

Ao escrever sobre este tema deparo-me, à partida, com duas contrariedades: A escassa informação biográfica sobre Camões e a devastação do terramoto de 1755 que deitou por terra a Lisboa do século XVI onde Camões viveu.

A primeira das contrariedades não tem impedido os biógrafos de chegar a algumas conclusões interessantes, nomeadamente através da análise da sua obra lírica, muito mais auto-biográfica do que o seu grande épico: "Os Lusíadas". No entanto, também não é difícil encontrar vestígios biográficos na grande epopeia da nossa literatura, embora sejam mais difíceis de comprovar.

Vários investigadores têm analisado a  biografia do poeta a partir da sua obra, desde Pedro de Mariz, Manuel Correia, Manuel Severim de Faria, Manuel de Faria e Sousa, Visconde de Juromenha e mais recentemente Carolina Michaelis e Teófilo Braga, não esquecendo também uma biografia bastante interessante - e original - de José Hermano Saraiva, lançada nos finais da década de 70 do século passado.

Quanto ao segundo problema, a diferença entre a Lisboa seiscentista e a actual é contornada por alguns autênticos milagres, como é o caso da resistente Alfama, onde se encontrava o Palácio dos Condes de Linhares, amos de Camões, e o seu panteão no convento do Beato, onde se encontra o túmulo daquela que poderá ter sido a musa de Camões: Dª Violante de Andrade, Condessa de Linhares. Infelizmente, o Convento do Beato, tal como todos os conventos com a extinção das ordens religiosas em 1834, passaram para a posse privada, pelo que não é possível visita-lo.  

Não é fácil registar posições muito comprometidas por parte dos investigadores camonianos. Acredito que tal se deva à necessidade de validação científica que não é fácil de obter a partir da análise semiológica e histórica dos seus poemas. Por este motivo, acredito que a biografia de José Hermano Saraiva foi uma lufada de ar fresco. Por não se tratar de um académico, aventurou-se por  hipóteses inovadoras, sempre malquistas junto da academia (às vezes justificadas) e que eu perfilho, nomeadamente quanto à ligação à sua ama. No entanto, não coloco de parte a sua não consumação, ou seja de se ter tratado de uma relação puramente emocional ou "platónica" alimentada pela veia lírica do poeta.

 O desejo ascencional de Camões não deve ser desconsiderado. O (mau)  nascimento é um tema recorrente na sua lírica. O poeta via no seu berço desprivilegiado a origem da sua vida desgraçada, pelo que de certa forma invejava aqueles cujo berço lhes trouxe a felicidade e abundância que ele nunca conheceu. Nas Rimas evoca o seu tempo de infância:

 Quando vim da materna sepultura

de novo ao mundo, logo me fizeram,

estrelas infelizes obrigado;

com ter livre alvedrio, mo não deram,

que eu conheci mil vezes na ventura,

o melhor, e o pior segui, forçado.

 E, para que o tormento conformado

me dessem com a idade, quando abrisse,

ainda menino , os olhos brandamente,

manda que, diligente,

um Menino sem olhos me ferisse.

As lágrimas da infância já manavam

com uma saudade namorada;

o som dos gritos que no berço dava,

já como de suspiros me soava.

Com a idade e Fado estava concertado,

porque, quando, por acaso me embalavam,

se versos de amor tristes me cantavam,

logo me adormecia a natureza,

que tão conforme estava com a tristeza.

Segundo J.H.Saraiva, o poeta morreu de amores pela condessa, sua ama, durante a sua estadia em Coimbra, quando D. Francisco de Noronha era Comendador da Ordem de São Martinho no Bispado de Coimbra. O Condado de Linhares estava ainda na posse de seu irmão, que lhe transmitiu posteriormente os direitos - a contragosto do Rei D. João III segundo constou - pelo que havia que dar à ociosidade nobiliarquica dos filhos "segundos" alguma função aparentemente útil. À Comenda seguiu-se o cargo de Embaixador em França, período durante o qual a condessa manteve alegadamente com o poeta uma relação não autorizada. Com o regresso de D. Francisco de Noronha e a posse do Condado de Linhares dá-se a mudança para Lisboa. Esta mudança ficou registada em verso:

 As mui fermosas ninfas, que soíam

caçar ligeiras feras na montanha

que em vão achar guarida pretendiam

à terra melhor vão da nossa Espanha

buscar novo apascento e novo rio

em triste sítio, entre gente estranha

(Elegia correntes àguas frias do Mondego)

 

Desta elegia destaco alguns aspectos:

-A mudança não é desejada (saudades dos momentos amorosos passados na ausência de seu amo?)

-Que Lisboa já tinha então a fama de ser a melhor terra de Espanha (Península Ibérica)

-Que Camões não tinha relações de proximidade. Quando escreve "gente estranha", entra em contradição com a convicção geral do seu berço lisboeta. 

O que resta do antigo palácio dos Condes de Linhares onde Camões viveu. O arco que se designava "Postigo do Conde de Linhares", actualmente chama-se  "Arco de Jesus" e fica bem perto do Campo das Cebolas.

 

 

Onde foram os aposentos dos amos de Camões é hoje uma casa de Fados, o que não deixa de ser uma singela homenagem à vida boémia do poeta.  

Este poema, um bocadinho "frouxo" diga-se, foi escrito na sua juventude. Deverá coincidir com os 20 anos do poeta (1544) e com o início do período de rejeição, física ou emocional, por parte da sua Violante, cuja fama de leviandade a acompanhou até aos últimos dias, contribuindo para o desprestígio da família junto da corte. No próximo já se "sente" a pena magistral a que Camões nos habituou

Foi minha ama uma fera, que o destino

não quis que mulher fosse a que tivesse

tal nome para mim; nem a haveria

Assi criado fui, porque bebesse

o veneno amoroso, de menino

que na maior idade beberia

e, por costume, não me mataria.

Logo então vi a imagem e semelhança

daquela humana fera tão fermosa,

suave e venenosa

que me criou aos peitos da esperança,

de quem eu vi depois o original,

que de todos os grande desatinos

faz a culpa soberba e soberana.

Parece-me que tinha forma humana,

mas cintilava espíritos divinos.

Um meneio e presença tinha tal

que se vangloriava todo o mal

na vista dela; a sombra, coa viveza,

excedia o poder da natureza

(Canção X)

Ou seja, para Camões a ama foi a causa da sua desgraça, utilizando termos fortes (fera, veneno, etc), mas dando a entender que encontrou alguém à sua imagem e semelhança -  a sua filha - mas que esta lhe trouxe o mesmo desgosto que a sua mãe. À perdição pela filha de Violante, D. Joana de Andrade, poderá estar associado o seu desterro para Punhete, actual Constância, onde passou pelas tais prisões baixas, que nos descreve neste soneto:       

Em prisões baixas fui um tempo atado,

vergonhoso castigo dos meus erros;

Inda agora arrojando levo os ferros,

que a morte, a meu pesar tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,

que amor não quer cordeiros nem bezerros;

Vi mágoas, vi misérias, vi desterros;

Parece-me que estava assi ordenado. 

 

Contentei-me com pouco, conhecendo

que era o contentamento vergonhoso,

só por ver que cousa era viver ledo. 

Mas a minha estrela, que eu já agora entendo

que era contentamento vergonhoso,

só por ver que cousa era viver ledo.

 

Mas na minha estrela, que eu já agora entendo,
a morte cega e o caso duvidoso

Me fizeram de gostos haver medo

 

Contra esta teoria surge o facto de segundo a interpretação de um soneto (em baixo) que alude à morte da sua amada - que chama Dinamene - chegamos à conclusão que a mesma morreu no mar, ou seja num naufrágio. D. Joana, filha de D. Francisco de Noronha e Dª Violante de Andrade, não morreu no mar,  pois os seus despojos encontram-se no panteão da família, no convento do Beato.

Ah! minha Dinamene! Assi deixaste

quem não deixara nunca de querer-te!

Ah! Ninfa minha! já não posso ver-te,

tão asinha esta vida desprezaste!

 

Como já para sempre te apartaste

de quem tão longe estava de perder-te?

Puderam estas ondas defender-te,

que não visses quem tanto magoaste?

 

Nem falar-te somente a dura morte,

me deixou tão cedo o negro manto

em teus olhos deitado consentiste!

 

Ó mar, ó  céu, ó minha escura sorte!

Que pena sentirei que valha tanto

que inda tenho por pouco o viver triste?

 

J.H.Saraiva resolve esta aparente incongruência defendendo que existiam duas irmãs com o mesmo nome. Ou seja, a Dona Joana de Andrade que Camões aparententemente cortejou terá  morrido por volta de 1550/51 que correponderá, aproximadamente, ao seu desterro de Punhete, pelo que a "segunda" Joana terá nascido após esta data. Ou seja, acreditando nesta versão, foi o amor por D. Joana que o levou para o seu cruel cativeiro. A jovem teve destino ainda mais dramático. Enviada para a Índia, morreu num naufrágio, acabando também a esperança que Camões pudesse alimentar (e quem sabe se também por influência de Violante) de ascender socialmente. A reforçar esta teoria, a própria designação de Dinamene  poderá significar Dª Ioana de Menezes. Sabendo que para Camões as palavras nunca eram escolhidas ao acaso e que o seu génio literário lhe permitia efectuar uma conjugação magistral com duplo e ambíguo significado, fico tentado a concordar, ao contrário do que sucede por variadíssimas vezes, com a teoria de José Hermano Saraiva.

Camões foi libertado em 1551, mas menos de um ano depois, no dia 16 de Junho de 1552, dia do Corpo de Deus, foi novamente preso por se envolver num desacato no Rossio. Segundo consta, o poeta deu uma cutilada na cabeça de um empregado do paço, em auxílio de dois amigos que se envolveram directamente na rixa. Existem documentos que comprovam este acontecimento, bem como a sua permanência na Cadeia do Tronco até 1553. Este facto é importante, para aferir se Camões seria fidalgo. Pelos vistos não era, pois os fidalgos iam geralmente para o Limoeiro (onde hoje funciona o Centro de Estudos Judiciários), excepto em casos de crimes de lesa-majestade. 

 

 

 

Largo de São Domingos, onde no dia 16 de Junho de 1552 Camões se envolveu numa rixa, que resultou numa cutilada na cabeça a um funcionário do paço, sendo levado para a Prisão do Tronco, às Portas de Santo Antão. 

  

 

 O local onde foi a prisão do tronco. Era um presídio onde não entravam nobres, o que responde à velha questão de saber se Camões era ou não fidalgo.

 

  

 

 Em 1992, a Câmara Municipal de Lisboa prestou homenagem ao poeta, colocando azulejos evocativos do IV centenário da efeméride.

  

Este facto é importante, não apenas por ser dos poucos que se podem comprovar documentalmente, mas porque acabou por estar na origem da sua partida para a Índia. Camões saiu da prisão pouco tempo antes de embarcar, pelo que poderá ter sido condição sine qua non para a sua libertação.Como sabemos, dessa viagem nasceu a ideia de escrever uma grande epopeia que narrasse os feitos gloriosos dos portugueses, que se materializou com a sua publicação em 1572. Camões esteve 16 anos fora da sua pátria. Saiu em 1553 e regressou em 1569, ou seja partiu quando o Rei D. Sebastião tinha 1 ano de idade e quando retornou o mesmo já reinava há 1 ano. Eram tempos difíceis. A somar ao início do declínio do nosso poderio em terras do Oriente, existia a questão da independência, assegurada apenas por aquela criança que viria a morrer em Alcacer Quibir. É em parte esse grito de revolta e de afirmação da pátria que Camões pretende testemunhar em "Os Lusíadas". No entanto, não é só de grandezas da epopeia lusa que o poeta nos fala. Também não esquece os defeitos pátrios.  É disso exemplo a forma ambígua (e por vezes desprimorosa) como se refere a Vasco da Gama, escudeiro tal como ele próprio, e heroi central da sua epopeia.  Logo no canto I, est. 44, Camões narra os erros de previsão do capitão:

Vasco da Gama, o forte Capitão,

Que a tamanhas empresas se oferece,

De soberbo e altivo coração,

A quem Fortuna sempre favorece,

Para qui se deter não vê razão,

Que inabitada a terra lhe parece.

Por diante passar determinada,

Mas não lhe sucedeu como cuidava.

 

No canto V, est. 99 volta Camões a ser crítico de Vasco da Gama aludindo à sua pouca erudição e dos seus descendentes, ou seja contemporâneos de Camões:

 Às Musas agradeça o nosso Gama

O muito amor da pátria, que as obriga

A dar aos seus, na lira, nome e fama

De toda a ilustre e bela fadiga;

Que ele, nem quem na estirpe, seu se chama,

Calíope não tem por tão amiga.

Nem as filhas do Tejo, que deixassem

As telas de ouro fino e que o cantassem.

 

 O veneno da pena de Camões dirigia-se na maior parte das vezes não aos herois mas aos seus descendentes, como  vimos na estância anterior. Caso paradigmático foi o da estância 24 no Canto X. A história é simples. Duarte Pacheco, a quem Camões chama o "Aquiles Lusitano", foi vítima de uma intriga na feitoria de São Jorge da Mina a que o Rei D. Manuel deu crédito e que resultou na sua prisão. Em contraponto, encheu de mercês Bráz de Albuquerque,  filho de Afonso de Albuquerque, antigo Vizo-Rei da Índia, e que curiosamente era casado com D. Maria, irmã da Condessa de Linhares, e vivia bem perto de Camões na famosa Casa do Bicos, ao Campo das Cebolas. Camões chama-lhe avarento lisonjeiro  - em virtude da fortuna imerecida que amealhou  nos cargos que ocupou como presidente do Senado de Lisboa e Vedor da Fazenda de D. João III- referindo-se às "doces sombras" ou seja aos feitos de seu pai, o grande Vizo-Rei da índia Afonso de Albuquerque.

 

Isto fazem os Reis, quando embebidos

Numa aparência branda que os contenta:

Dão os prémios, de Aiace merecidos

À Língua vâ de Ulisses Fraudulenta.

Mas vingo-me: que os bens mal repartidos

Por quem só doces sombras apresenta,

Se não os dão a sábios cavaleiros,

Dão-os logo a avarentos lisonjeiros

 

 

Casa dos Bicos, mandada construir por Bráz de Albuquerque, filho legitimado de Afonso de Albuquerque, a quem Camões chamou nos Lusíadas "avarento lisonjeiro"

 

Camões morreu em 1580, provavelmente no dia 10 de Junho, na Calçada do Campo de Santana, embora também não haja base documental que o comprove. Vale a evocação que um antigo proprietário colocou, como legado dos últimos instantes de vida do Principe dos Poetas.

 

 

  

Local onde segundo a tradição morreu Camões. É um prédio modesto situado na Calçada do Santana e com uma "tasca" no R/C. Mais uma inadvertida homenagem ao poeta...

 

Em 1880, oito anos antes do nascimento de Pessoa, a pátria rende uma grande homenagem a Camões. Foi uma festa malquista para o regime, porquanto que os repúblicanos transformaram as celebrações em acções de propaganda ideológica, havendo quem aponte este evento como o marco de afirmação definitiva do partido. O que é certo é que na evocação da morte de Pombal, 2 anos depois, outra figura inspiradora para os repúblicanos, o regime já não caíu no mesmo erro, deixando estes afastados da organização da celebração da efeméride. No âmbito da evocação do IIIº centenário da sua morte, Camões é transladado para os Jerónimos, pelo menos espiritualmente. É pouco provável que os restos mortais que constam dentro do seu sumptuoso túmulo, colocado à direita da porta principal da Igreja dos Jerónimos, sejam efectivamente do poeta. A justificação é simples. Apesar de já ser um poeta celebrado, principalmente depois da restauração da independência em 1640, com o terramoto as ossadas perderam-se.   

 

Palácio da Independências, às Portas de Santo Antão. Sede da conspiração de 1 de Dezembro de 1640 que conduziu à Restauração da Independência. A glória póstuma de Camões deve-se, em grande parte, a este facto.

 

 

Túmulo de Camões na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos

publicado por Rui Romão às 16:38
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

Mais Prosa do que Poesia na Vida de D. Pedro.

 

 

 

Estive por estes dias em Alcobaça e nem queria acreditar quando constatei que junto dos célebres túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro existe um erro na data do reinado daquele que ficou conhecido como "o justiceiro".  Em vez de 1360, deveria ler-se 1357, ano da morte de seu pai - D. Afonso IV -  e seu antecessor. Tanto mais que à data, D. Pedro já era viúvo daquela que foi indiscutivelmente sua mulher: D. Constança Manuel.

Parece que a historiografia se tem inspirado na veia poética do avô de D. Pedro (D. Dinis) e esquecido a parte mais factual. O erro na datação do túmulo é a metáfora perfeita daquilo que tem sido a visão romanceada da sua vida, envolta quase exclusivamente na relação com Inês de Castro.

Vamos aos factos. Para começar, nunca se escreve sobre a sua inclinação homossexual. Nisso, Fernão Lopes é mais corajoso do que muito autor contemporâneo, embora este fosse cronista de D. João I - que disputou o trono com os filhos de D. Pedro e D. Inês - no entanto merece todo o crédito por ser um escritor honesto. Conta-nos na crónica de D. Pedro, com a sua habitual mestria, do amor entre o Rei e o escudeiro Afonso Madeira "e como quer que o el rei muito amasse, mais de que se deve aqui dizer (...). O escudeiro não teve uma história feliz para contar. Envolveu-se com uma mulher casada e num rebate ciumento, D. Pedro não foi misericordioso, assim como não foi com os carrascos de Inês de Castro, e ainda segundo a pena de Fernão Lopes, "mandou-lhe cortar aqueles membros que os homens em mor apreço têm". 

A própria história de Inês de Castro está muito mal contada, a bem da poesia mas em detrimento da verdade. Prosaicamente, se D. Pedro não casou com D. Inês foi porque não quis. D. Afonso IV instou-o a fazê-lo mas ele sempre se recusou, preferindo viver  "amancebado", usando a terminologia da época, sem garantir a sucessão ao trono, que apenas se sustentava numa criança débil, o futuro D. Fernando I, o tal "Rei fraco que faz fraca a forte gente" segundo a pena corrosiva de Camões.

Para além da questão sucessória, que impedia que celebrasse casamento, gerava uma situação indefinida porque o rei ia "coleccionando" bastardos numa situação que não se podia considerar nem de casamento nem de uma simples e habitual situação cortesã.

A somar a isto tudo, a perniciosa influência dos irmãos de Inês de Castro, que nos podia custar a independência pelo seu envolvimento na fratricida guerra castelhana entre Pedro "O Cruel" e Henrique de Trastâmara.

Isto não justifica que se retire a vida a alguém, mas também não se pode dizer que D. Afonso IV agia apenas por uma questão passional ou por requintes de malvadez. Foram razões de Estado que presidiram a esta decisão.

A História é a História, não a podemos mudar. Mas no presente, bem que se podia mudar a placa...   

 

publicado por Rui Romão às 22:13
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

A Passagem das Tapeçaria de D. Afonso V por Lisboa

 

 

A presença das Tapeçarias ditas "de Pastrana" em Lisboa foi talvez o evento cultural mais importante que assisti nos últimos anos no nosso país. Para termos a noção, a sua estadia em Lisboa é bem mais rara do que muitos fenómenos astronómicos, alguns dos quais ficaram  retidos na nossa memória colectiva como é o caso do Halley, o tal cometa da República, que no século XX apareceu em 2 momentos relevantes: 1910 e 1986, respectivamente no ano de instauração da República e de adesão à então CEE.

Mas se o Halley aparece de 76 em 76 anos, que dizer de uma obra que já não "aparecia" no nosso país desde o século XVI, sem que os historiadores consigam sequer descobrir como é que elas sairam de Portugal. Se à sua raridade somarmos o facto de se tratar de uma peça única, completamente inovadora à data da sua execução, e  com uma importância simbólica extraordinária para a compreensão do século XV português, ficamos com a noção exacta do fenómeno que representa a sua exposição em Lisboa.

As 4 enormes tapeçarias representam os feitos de armas de D. Afonso V no norte de África. Das 4 tapeçarias,  3 são evocativas da tomada de Arzila, ao passo que a 4ª nos dá a visão da ocupação de Tânger, essa malfadada praça para as hostes portuguesas.

A exposição onde estas peças estão integradas receberem o nome de "A Invenção da Glória", o que foi uma escolha feliz tendo em conta os objectivos pretendidos com a encomenda da peça. Ou seja, a criação de uma obra que imortalizasse os feitos de armas de um rei que ficou para a História como o "O Africano", gravando para a posterioridade o testemunho da sua gloria.

Não obstante estes feitos de armas e a sua aposta "propagandística", hoje todos sabemos que o Rei foi uma fraca figura, um autêntico joguete nas mãos dos fidalgos poderosos. Conhece-se a expressão de seu filho e sucessor - igualmente representado nas tapeçarias - que o seu paí apenas lhe tinha deixado as estradas do reino para governar...

Infelizmente, ontem como hoje, o que não faltam são gigantes com pés de barro, e cabe-nos a nós perceber onde acaba a propaganda e começa a realidade. É um paralelo que importa considerar na actualidade: não existe propaganda que consiga resistir à verdade dos factos, por muito tempo que se possa demorar até apurar essa realidade à luz de uma visão mais racional e desapaixonada. 

Para mim, a realidade no último Sábado, foi marcante. Espero que aquelas tapeçarias da escola flamenga possam regressar ao nosso país, caso contrário terei que ir à colegida de Pastrana (nos arredores de Madrid) pois bem merecem uma nova visita.

Como crítica, apenas deixo o défice de propaganda do MNAA (curiosamente na promoção de uma obra propagandística) porque desconfio que a importância desta exposição não foi correctamente comunicada para a opinião pública. Assim se explica que no último fim-de-semana em que a obra estaria patente, a afluência de público fosse fraca,  naquele que foi o dia da minha despedida (ou de um "até breve") às tapeçarias de Pastrana.    

 

publicado por Rui Romão às 11:28
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