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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012

História Palaciana Numa Cidade Sem Palácios

Dizer que a capital portuguesa não tem palácios pode parecer exagerado. Quem ler estas linhas certamente que conseguirá identificar dezenas deles, uma boa parte dos quais adstrito ao funcionamento dos orgãos do Estado. Por exemplo: o Palácio Ratton, é hoje a sede do Tribunal Constitucional, ou o Palácio das Necessidades, onde funciona o Ministério dos Negócios Estrangeiros, ou mesmo o Palácio dos Marqueses da Praia, onde o Partido Socialista instalou a sua sede nacional. Referi três exemplos aleatoriamente, mas podia citar muitos mais, no entanto nenhum destes palácios se pode enquadrar na categoria de Palácio Real, como sucede em todos os paises da Europa. Veja-se, por exemplo, o caso da nossa vizinha Espanha, que tem em Madrid o Palácio Oriente ou da Zarzuela, que em qualquer dos casos não tem paralelo com nenhum palácio lisboeta.

A que se deve esta “pobreza” palaciana? Para responder a esta pergunta temos que ir aos primórdios dos palácios na actual capital. Pese embora a conquista em 1147, por Dom Afonso Henriques, nenhum Rei, até D. Afonso III, se estabeleceu de forma regular em Lisboa. Naquele tempo não existia a ideia de “Capital” como temos hoje, porque a Corte era móvel, mas Lisboa também não era ainda uma cidade segura, dada a presença a sul dos “Sarracenos”. Dom Afonso III, que foi o Rei que conquistou as últimas parcelas do actual território português que estavam ainda na posse dos mouros, estabeleceu a “cabeça” do seu reino em Lisboa. O motivo talvez tenha sido o excelente porto de que dispunha, ele que vinha de Paris, onde a actividade comercial era muito activa. Terá sido o “Bolonhês” a vislumbrar as potencialidades de Lisboa, como ponto de trocas comerciais, o que o levou a estabelecer-se no Castelo, mas tarde designado por São Jorge. O seu filho, Dom Dinis, foi o primeiro Rei a nascer em Lisboa, mantendo-se como sede do poder em Portugal. No entanto, o castelo, que era um edifício com funções eminentemente militares, não oferecia as condições de conforto e construiu-se outro palácio, designado por palácio de São Martinho, que ainda hoje existe, onde mais tarde funcionou como estabelecimento prisional, com o nome de “Limoeiro”. Foi neste palácio que se deu o episódio da morte do Andeiro pelas mãos do então Mestre de Avis, magistralmente descrito pela pena de Fernão Lopes.

O Palácio de São Martinho foi até Dom Manuel o Palácio Real na então já indiscutível capital. Com o “Venturoso” passa-se um episódio pitoresco que levou à mudança dos Paços de São Martinho para o actual Terreiro do Paço. D. Manuel deu ordem aos embaixadores para casar o Príncipe Herdeiro, futuro D. João III, com uma princesa da casa da Austria, Dona Leonor, irmã de Carlos V. Sucede que quando estavam a terminar a negociação, morre a raínha Dona Maria, segunda mulher de D. Manuel, e o Rei instrui imediatamente os seus representantes para mudar o acordo. A príncesa já não iria casar com o Príncipe mas como ele próprio. Este casamento abalou as relações entre pai e filho, e com a própria madrasta, que seria mãe da Infanta Dona Maria, construtura da Igreja da Luz e a quem já atribuiram o título de “musa de Camões”, embora com argumentos muito frágeis.

Sucede que quando se estabeleceram os esponsais já Dom Manuel andava na casa dos 50 anos, e a noiva era uma jovem. Dom Manuel, preocupado e com a possibilidade de não conseguir cumprir o seu papel de marido, aconselhou-se com os seus médicos, que lhe apresentaram como solução o poder afrodisíaco da pimenta. Dom Manuel nem hesitou. Mandou colocar a sua alcova conjugal por cima dos armazens da pimenta e assim nasceu o Palácio da Ribeira.

Depois de Dom Manuel, Portugal entra numa fase descendente que culmina com a perda da independência, após a desatrada aventura marroquina de Dom Sebastião. Este Rei gostava muito do Palácio de Santos, onde hoje funciona a Embaixada da República Francesa, local de onde terá partido, segundo uma tradição, para a sua aventura em praias marroquinas. Após o golpe da Restauração tivemos que aguentar uma guerra durante 28 anos, que delapidaram completamente os nossos recursos. Só saímos da penúria com o aparecimento das pepitas brasileras, que marcaram todo o reinado de Dom João V e de Dom José.

A grande obra do magnânimo não foi todavia em Lisboa mas em Mafra, onde em cumprimento de uma promessa, após o nascimento de um sucessor, mandou construír um enorme palácio/convento, ainda hoje o segundo maior da Península Ibérica, apenas menor do que o Escorial e por escassos metros. 

E assim não aproveitámos esta avalanche de recursos para construir um grande palácio na capital. No dia 1 de Novembro de 1755 o Palácio da Ribeira, a recém-inaugurada “Ópera do Tejo”, e toda a Lisboa ribeirinha, vieram a baixo. A família real, por sorte, estava no Palácio de Belém, saindo incólume desta tragédia. Nem por isso o Rei arriscou, e nem nesse pequeno palácio de lazer, construído por Dom João V, quis habitar. Mandou construir um barracão nos terrenos onde está actualmente o Palácio da Ajuda, a que o povo chamava de “Real Barraca”. Depois do cataclismo, o Rei Dom José nunca mais quis habitar num palácio de alvenaria, pelo risco de morte após um novo sismo, preferindo viver numa enorme barraca em Madeira, num sítio de maior altitude, afastado do principal foco de destruição. Este real barracão ardeu, como seria inevitávél numa construção de madeira no tempo em que a “energia” era fornecida por candeeiros de azeite, e já no reinado da sucessora, Dona Maria I, iniciou-se aquele que devia ser o grande palácio da capital nesse mesmo local.

Na reconstrução pombalina, o ministro de Dom José nunca se mostrou farovável à reconstrução do Paço da Ribeira e isso explica-se pelo nome que deu ao antigo Terreiro do Paço, rebatizando-o de Praça do Comércio, onde o Marquês pensava que devia ser o grande entreposto comercial português. Mal sabia Pombal que tinha que esperar até a 2011 para que esse local se tornasse um local de comércio, embora bem diferente. Já não são trocas comercias entre mercadores que ali se fazem, mas sim a prestação de serviços no sector da maior indústria do mundo: o turismo. Na minha opinião, o aproveitamento das arcadas pombalinas para espaços de lazer e restauração foi a melhor coisa que aconteceu a Lisboa desde a florestação da Serra do Monsanto no princípio do século XX, pela mão do enérgico ministro de Salazar, Duarte Pacheco.

Regressando aos palácios, foi na Ajuda que se fixou Dona Maria e o Príncipe regente e foi deste palácio que em 1807, na iminência da invasão francesa, embarcaram rumo ao Brasil. Quando regressaram, depois da revolução liberal de 1820, o palácio já não possuia as condições necessárias para acolher a Família Real. Existiam outros palácios fora da capital como em Queluz e Mafra, onde os reis passavam mais tempo, mas na capital não tinham um local apropriado. Fixaram-se num antigo palácio mandado construir por Dona Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra, o Palácio da Bemposto (ou Paço da Raínha), onde D. João VI se encontrava, por exemplo, na revolta da Abrilada, comandada pelo seu filho Dom Miguel.

Com a guerra civil e a subsequente instabilidade política entre liberais progressistas e moderados, as finanças públicas deixaram de poder suportar a construção de residências para o Rei. Não era só a verba mas também a mudança que se operou no papel do monarca. O Rei deixou de ser visto como o representante de Deus na terra mas apenas um servidor do Estado, que tinha que se submeter à vontade do soberano congresso. Evidentemente que muitos reis não aceitaram de bom grado esse papel passivo, como foi o caso de Dona Maria II,  na chamada “Belenzada”, cujo “epicentro” teve lugar no Paço de Belém por uma questão meramente logística. Da-se o nome de “Belenzada” a um golpe politico-militar desencadeado pela raínha para demitir o governo Setembrista, liderado por Passos manuel. Para tal, a raínha pediu auxílio à coroa inglesa e Belga, à qual o marido estava ligado por laços de parentesco, que estacionaram uma esquadra no Tejo, ao largo de Belém, supostamente para defender a Raínha. Os ingleses chegaram a desembarcar, mas o golpe malogrou-se. De resto, aquele palácio parece que deu sempre azar aos reis (e presidentes da República) que lá se fixavam, mesmo que provisoriamente. Para além da Belenzada, foi lá que se fixou Dom Carlos quando era Duque de Bragança e se casou com a Princessa Dona Amélia de Orleães. Todos sabemos como foi o triste fim de Dom Carlos, varado de balas no Terreiro do Paço no dia 1 de Fevereiro de 1908. Dois anos depois, no dia 3 de Outubro de 1910 era neste paço que se encontrava o Rei Dom Manuel II, numa recepção ao Presidente da República do Brasil, em visita ao nosso país, quando soube que estava em marcha o golpe que haveria de instaurar a República em Portugal. Nessa mesma República, por duas vezes Bernardino Machado teve que abandonar o poder (e o país) na sequência dos golpes de Estado Sidonista e do 28 de Maio. Já nos nossos dias, foi dali que Américo Tomás saiu para o exílio, na sequência do 25 de Abril de 1974.

O Palácio da Necessidades também não foi sinónimo de maior fortuna para as cabeças coroadas de Portugal. Dona Maria II morreu ali aos 34 anos, no parto do seu 11º filho. O sucessor, Dom Pedro V e a sua mulher, a Rainha Dona Estefânia, viveram ainda menos tempo. A raínha, habituada ao rigor dos invernos na Alemanha, sucumbiu ao sol lisboeta, e o Rei não resistiu às contantes epidemias que varreram a capital portuguesa. D. Pedro V nunca se amedrontou com estes focos de contágio, optando não só por ficar na cidade, como por ir aos hospitais dar a mão (literalmente) aos infectados. Com essa bonomia ganhou fama de santo, tendo sido acolhida com grande consternação e revolta a notícia da sua morte. Ficou também na história a célebre caixa que colocou em frente do Paço das Necessidades com os bilhetes e queixas do povo. Não sei se seriam bem as queixas do povo que lá colocavam, até porque o povo era na sua maioria analfabeto e como tal como não se podia exprimir dessa forma.

Dom Pedro V morreu neste palácio e o sucessor, Dom Luis, que era muito próximo do irmão, não quis viver no mesmo sítio onde o seu irmão predilecto falecera e decidiu fixar-se no Palácio da Ajuda, então incompleto (como está ainda hoje) face ao projecto gigantesco que hoje podemos observar na maquete que se encontra na Sala dos Archeiros.

Se o Palácio da Ajuda apresenta um aspecto medonho na face virada para o rio, onde no projecto inicial se encontrava a entrada principal, por dentro foi ricamente decorado, pela mão da Raínha Dona Maria Pia, mulher de D. Luis I. Esta princesa italiana deixou fama de perdulária, não virando a cara a quem a acusava de ser uma raínha estimável mas para um país rico… Ficou na História a sua constante falta de verbas, muitas vezes suprimidas pelo industrial belga, Henrique Burnay, fundador da CUF, que terá possibilitado à soberana pagar as contas da sua modista, a não menos célebre Aline.

O Rei Dom Luis I, que ficou conhecido como “O Popular” encarnou o modelo tipo do que devia ser um Rei na concepção dos Liberais mais progressivos. Era um Rei apagado, que reinava mas não governava, sempre avesso a interferir na gestão do país, que devia ser assegurada pelo Parlamento e pelo Governo. Essa pacatez não era correspondida pela Rainha, que tinha o sangue italiano a correr-lhe nas veias, ficando célebres as palavras que dirigiu ao então já idoso Duque de Saldanha, no dia 19 de Setembro de 1870. Nesse dia deu-se um episódio que ficou conhecido pela “saldanhada”. O Duque cercou o Palácio da Ajuda exigindo que o Rei demitisse o seu arqui-inimigo Duque de Loulé, que então chefiava o governo. O Rei não teve outra alternativa do que ceder, recebendo o Duque nos seus aposentos e entregando-lhe o Governo (que de resto tería duração breve). Quando alguém se dirigia ao Rei, não saía do Palácio sem apresentar os cumprimentos à Raínha, e Saldanha cumpriu a praxe. O que o Duque não esperava era que a Rainha lhe dissesse que se “eu fosse o Rei mandava-o fuzilar”.

Dom Luis morre em Outubro de 1889, sucedendo-lhe o filho, Dom Carlos. Para não “despejar”a Rainha-mãe do Paço da Ajuda, fixa-se nas Necessidades. De resto, Dona Maria Pia só sairia da Ajuda com o golpe republicano, a caminho do exílio na sua Itália natal, onde morreu no ano seguinte.

Com o regicídio, sucede no trono o filho mais novo de Dom Carlos, aclamado como D. Manuel II, que se manteve com a mãe, Rainha Don Amélia, no Paço das Necessidades, até ao dia 4 de Outubro, quando o palácio foi atingido pelo navio Adamastor, estacionado no Tejo, em pleno golpe Republicano. O Rei partiu para Mafra e depois embarcou na Ericeira para o exílio, de onde apenas regressou após a sua morte, para o Panteão dos Reis da Casa Brigantina, em São Vicente de Fora.

Com estes e outros, pequenos e grandes episódios históricos, quase nos esquecemos que Lisboa não tem palácios.

publicado por Rui Romão às 08:23
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