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Sábado, 12 de Setembro de 2009

Afinal, as Notas de Alves Reis eram Verdadeiras

Os portugueses gostam particularmente de escrever o seu nome no livro dos recordes. O Guiness é um terreno fértil onde cabem os mais estranhos registos, desde a maior alheira do mundo, bolo Rei, etc. 

Existe um que dificilmente será batido: o da maior falsificação de notas do mundo. Esse "mérito" cabe inteiramente a Alves Reis. Conhecido burlão, que aliava o denodo a uma inteligência rara, conseguiu emitir 200.000 notas de 500 escudos, num montante que o tornou, seguramente, um dos homens mais ricos de Portugal em 1925.

Mas Alves Reis não foi um simples falsificador, até porque as notas eram, imagine-se, verdadeiras. De resto, elas foram produzidas na gráfica oficial do Banco de Portugal, a Waterloo & Son's, com as mesmas chapas de emissões anteriores.

Este facto causa estupefação. Como foi possível que alguém sem qualquer tipo de familiaridade com o mundo financeiro conseguisse conceber e executar um plano deste género, sem o conhecimento do Banco de Portugal?

A resposta é simples: o proprio banco fazia emissões clandestinas com a finalidade de injectar massa monetária em circulação sem provocar a desvalorização da moeda, que seria inevitável se fosse dada publicidade a essas emissões. Embora já não estivesse em vigor a convertibilidade interna (o padrão ouro) ainda estava, como hoje, ao nível externo. Ou seja uma nota do Banco de Portugal representava um título convertível em ouro. Se houvesse um excesso de massa monetária, sem a devida correspondência em ouro, a moeda desvalorizava e a débil economia portuguesa sucumbiria.  A escassez de massa monetária nos anos 20 com uma inflação galopante provocada pela Grande Guerra  e pela balbúrdia da 1ª répública, fez praticamente desaparecer o dinheiro físico. Como resposta à ausência de  moeda, criou-se espontaneamente um sistema de cédulas, que não eram mais do que a emissão de documentos substitutivos de moeda em estabelecimentos comerciais, por vezes até em tampas de latas de conservas...  

Neste cenário, não restava outra opção do que lançar massa monetária em segredo, geralmente através de emissários, por forma a desresponsabilizar politicamente os governadores do Banco de Portugal.

Alves dos Reis começou a perceber da questão fiduciária quando esteve preso no Porto, por dívidas e por forjar um diploma de engenheiro. A diferença é que Alves Reis e o seu "gang" onde constavam os irmãos José e António Bandeira (este último ministro em Haia, Karel Marang (o negociador com a Waterloo & Sons) e Adolph Hennies, um presumível espião alemão, encomendaram estas notas para proveito próprio e sem mandato para tal.

Esta loucura teve como momento alto a fundação do Banco Angola e Metrópole (ou engole a metrópole como era satiricamente referido), com o qual Alves do Reis pretendia "lavar" o dinheiro emitido. A criação do banco foi, no entanto, a pedra de toque para o despoletar de uma campanha agressiva por parte de "O Século", em parte dirigida pelo industrial Alfredo da Silva, sob a acusação de financiamento alemão. Não deixa de ser uma irónico ver Alfredo da Silva acusar alguém de ser germanófilo, ele que sofreu na pele essa mesma acusação (a CUF chegou a estar na black list do governo britânico).

O mais caricato nessa história é que, com a inundação de notas de 500$, os feirantes deixaram de as aceitar por suspeitarem da sua autenticidade. O Banco de Portugal procedeu a uma rigorosa análise e concluiu que a mesmas eram verdadeiras (ou não fossem mesmo!).

A segunda parte do plano era o controlo do Banco de Portugal (para legalizar a emissão) e do "Diário de Notícias" (para contra-atacar a campanha de "O Século"). Na altura o Banco de Portugal era uma entidade privada embora o Estado tivesse aquilo que hoje se denomina de "Golden Share", ou seja, capital minoritário mas que lhe confere amplos poderes entre os quais a nomeação do governador. Ambos os projectos foram interrompidos com a prisão de Alves dos Reis e dos seus cúmplices portugueses.

A campanha na imprensa acabou por surtir os seus efeitos e o crime foi descoberto através da denúncia de um cambista no Porto, onde os "homens de mão" de Alves Reis convertiam essas notas em moeda estrangeira.

Burlão e criminoso mas ao mesmo tempo genial. Faço minhas as palavras de Teixeira da Mota, seu biógrafo, "Admiro-o muito e condeno-o muito pouco"  

publicado por Rui Romão às 17:36
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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

Herois ou Vilões?

Como escreveu Hegel "A coruja de minerva só levanta voo ao anoitecer". Esta frase pode ser interpretada de diversas formas, embora o filósofo alemão se quisesse referir à necessidade de distanciamento dos factos para os poder interpretar do ponto de vista estrutural e não apenas conjecturalmente.

Esta citação vem a propósito da interpretação que a história faz de personagens controversas.  Pessoas odiadas em vida, cujos ventos da história se encarregaram de lhes conceder uma biografia mais bondosa. São vários os exemplos, no entanto Pombal parece-me o mais paradigmático. Se dissessem aos seus contemporâneos que teria uma estátua no sítio mais nobre do país, passados apenas duzentos e poucos anos, provavelmente não acreditariam. Ironia das Ironias, no topo de uma avenida com o nome de liberdade! Outro caso mais recente, Oliveira Salazar, também já se encontra em fase de reabilitação, como atesta um recente programa televisivo e a profusão de obras, originais ou reeditadas, dadas à estampa ultimamente.

No entanto já tive oportunidade de falar nestes casos, pelo que gostaria de referir três personalidades da história recente de Portugal que, numa escala mais reduzida, reúnem os mesmos condimentos dos dois casos que mencionei. Pessoalmente, não as consigo catalogar tout court nem como herois nem como vilões, porquanto que a espectacularidade das suas façanhas só esbarra na ilicitude dos seus actos. São eles o "Remexido", o Zé do Telhado e o Alves dos Reis.   

 O "Remexido", alcunha herdada de família, foi o nome com que ficou conhecido na história José Joaquim de Sousa Reis,  combatente indefectível da causa de D. Miguel I. Consideram-no vilão provavelmente porque a História é sempre contada pelos vencedores, e como derrotado sujeitou-se ao rótulo que os liberais lhe colocaram. A lógica é semelhante à do tribunal de Nuremberga, quando questionaram um general do exército nazi sobre as causas que o levaram a estar sentado no banco dos réus. Este respondeu simplesmente que se encontrava nesta situação porque perdeu a guerra, porque se tivesse ganho era o seu interlocutor que ali estaria a responder pelos seus actos. É verdade que o "Remexido" espalhou o terror muito para além do final da guerra, no entanto também não deixa de ser verdade que as prerrogativas da Concessão de Évora-Monte, que previam a amnistia a todos os combatentes que lutaram pela facção absolutista, não foram cumpridas, dadas as represálias de que estes foram alvo. O "Remexido" perante este cenário de retaliação,  a que a sua família não foi poupada, resolveu então não entregar as armas e resisitir praticamente até ao último homem, que foi ele.

Executado em Faro, em 1838, não teve direito a estátuas como Saldanha, Sá-Nogueira ou Terceira. Mas só não as teve porque perdeu, ao contrário dos nomes que citei. Inclino-me mais para o considerar heroi pela bravura e dedicação, mas sei que se trata de uma posição polémica. 

O "Zé do Telhado" é considerado o Robin dos Bosques português, aparentemente por partilhar os proventos da sua actividade criminosa com os mais necessitados. Tinha por zona de actuação o norte do país, tendo sido preso em 1859 e encaminhado para a Cadeia da Relação do Porto, onde privou com Camilo Castelo Branco, a braços com o caso de adultério com  Ana Plácido. Considero Zé do Telhado um vilão. Ele não lesou apenas os ricos. Remediados, pobres e gente trabalhadora viram-se extirpados de rendimentos de trabalho honesto por obra e graça de Zé do telhado e da sua equipa de bandoleiros. No século XIX, em pleno dealbar do romantismo, esta figura suscitou admiração e interesse que justifica que alguém lhe dedique algumas linhas 150 anos depois, mas na essência nada o distingue dos restantes bandidos que existiam naquela altura.

O último caso, Alves dos Reis, é de todos o que mais facilmente eu setencio de vilão, até porque não se conhece nenhuma actividade benemérita que pudesse contrabalançar com a sua actividade criminosa. No entanto, dos exemplos que citei, foi o único que nunca empregou força física para conseguir os seus intentos, a que se soma uma genialidade a todos os títulos notável. A sua actividade burlesca começou desde cedo. Forjou um diploma de engenharia de uma universidade fictícia, comprou acções de empresas com cheques sem fundo, entre outros episódios recambulescos. Tornou-se célebre quando em 1925, aproveitando a balbúrdia republicana, fundou um banco em Angola - Banco Angola e Metrópole - financiado através de notas de 500 escudos falsas, num montante que se aproximava de cerca de 1% do produto interno bruto português na altura. O caso teve repercussões internacionais e levou à saída de circulação de todas as notas de 500$. A prisão foi o seu destino, não antes sem ter acumulado riqueza através da compra de participações sociais em diversas empresas, tentando inclusivamente adquirir o Diário de Notícias.

Serão os ventos da história magnânimes ao ponto de os absolver?

publicado por Rui Romão às 13:11
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