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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

Na Igreja de Santos-o-Velho

Escrevo este post com especial carinho. Falar da Igreja/convento de Santos-o-Velho é falar da minha segunda casa. Naquele local guardo as mais tenras memórias de infância. Foi ali que os meus pais se casaram, onde fui baptizado, fiz a primeira comunhão, assisti à catequese, participei em peças de teatro, brinquei, joguei à bola, enfim foi o meu berço. Nasci e cresci na Av. 24 de Julho no nº60, num prédio amarelo fronteiro às escadinhas da praia. Subia todos os dias essas escadinhas a grande velocidade, fosse de manhã para ir à Missa à Igreja de Santos-o-Velho, ou à tarde para ir à escola, na Rua das Janelas Verdes (num edifício que está hoje numa triste ruína). Estava longe de imaginar a História que aquele templo cristão tinha para contar, cuja antiguidade remonta ao período romano.

A origem do topónimo remete-nos para o martírio de três crianças Veríssimo, Júlia e Máxima em 308, acusados e sentenciados pelo prefeito romano de seguirem a fé de cristo. Estávamos então no período anterior à conversão de Roma ao Cristianismo, reinava então o Imperador Diocleciano, último grande perseguidor dos cristãos. O martírio das crianças antecedeu por escassos anos o Édito de Milão de 311, que não só toleraria à fé cristã, como a reconheceria como a religião oficial, numa altura em que o cristianismo já era um fenómeno tão difundido no Império, que não podia mais ser combatido com a violência.

Data do período visigótico a erecção de uma pequena ermida em honra dos mártires, cujos corpos tinham sido resgatados naquela zona ribeirinha, embrião da actual Igreja/convento. Os Visigodos eram um povo cristão que se fixou na península após a queda de Roma, submetendo outros povos europeus – Alanos, Vândalos e Suevos - que aqui tinham chegado anteriormente, quando a desagregação do Império de Roma já era evidente.

A pequena ermida terá sido destruída durante o período de dominação islâmica, que teve o seu dealbar em 711 e duraria até 1147, ano em que Dom Afonso Henriques, apoiado pelos cruzados, tomaria Lisboa para a cristandade. Foi o nosso primeiro Rei que mandou reconstruir a pequena ermida mas com maior dignidade, ascendendo à categoria de Igreja. Ao seu filho, D. Sancho I, devemos a construção do convento, que haveria ao longo do tempo a ter diversas utilizações, e onde se passaram episódios de suma relevância para a História de Portugal. Não terei nesta exposição grandes preocupações do ponto de vista de exaustividade. Escrevo, como sempre, “ao sabor da pena”, de forma espontânea e sem auxiliares, socorrendo-me apenas da minha memória, com as vantagens e desvantagens que possa ter. Prefiro as vantagens, que se prendem com a maior espontaneidade e prazer da escrita, que seriam prejudicadas com as interrupções de discurso.

No convento, mandado edificar pelo nosso segundo Rei, funcionou a primeira sede da Ordem de Santiago em Portugal. Os Espatários eram monges-cavaleiros que tiveram um papel importante no processo de Reconquista, recebendo vastos domínios como recompensa pelos serviços prestados. A sede da Ordem funcionou em Santos-o-Velho até serem transferidos primeiro para Mértola, depois para Alcácer do Sal e, finalmente, para Palmela. Não se sabe ao certo a data da mudança, mas conhece-se a utilização posterior que foi dada ao edifício. Aqui foi instalada a Comenda Feminina da Ordem, constituída pelas mulheres e filhas dos freires, que por prerrogativa da Ordem tinham permissão para casar. Os cavaleiros de Santiago, principalmente no período de reconquista, viviam permanentemente em combate, pelo que a existência da Comenda era uma salvaguarda e um abrigo para as famílias dos cavaleiros. Para além das obrigações militares, as regras da Ordem proibiam a existência de contactos íntimos durante a quaresma e advento, pelo que a presença da família num local fácil de controlar também permitia garantir a observância desta regra.

Por este motivo esta comenda foi um albergue de pessoas ilustres, como por exemplo Filipa Moniz Perestrelo, mulher de Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, que chegou a Comendadeira da Ordem. Colombo nunca foi da Ordem de Santiago, mas o seu sogro, Bartolomeu Perestrelo (falecido muito antes do seu casamento) esteve ao serviço do Infante Dom João, que era Mestre da Ordem de Santiago. Por este motivo, a sua mulher e a sua filha terão vivido no Convento de Santos-o-Velho. No entanto, este descendente de italianos, mais tarde passou para a Ordem de Cristo, onde já estaria em 1419 (35 anos antes de nascer a sua filha Filipa), porque foi ao serviço do Infante Dom Henrique, Mestre da Ordem de Cristo, que lhe foi outorgado o título de descobridor da Ilha da Madeira. É evidente que nenhum dos 3 navegadores descobriram a Ilha, porque há muito ela estava descoberta. O que fizeram foi cumprir a ordem do Infante Dom Henrique para as povoarem e assim pôr cobro à cobiça castelhana.

Não sabemos as causas da mudança da casa do Infante D. João para a do Infante Dom Henrique, mas podemos dizer que Bartolomeu Perestrelo apostou no cavalo certo. O Infante Dom João foi o mais apagado da “ínclita geração de altos infantes” na designação da prole de D. João I e Dª Filipa de Lencastre de Camões. Este papel secundário é corroborado por Fernando Pessoa, que na “Mensagem” lhe dedica este poema, onde expõe a sua pequenez face aos seus irmãos:

 

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita --
O todo, ou o seu nada.

 

Não sabemos a data da mudança, mas sabemos seguramente que quando Dº Filipa Moniz Perestrelo nasceu o seu pai permanecia ao serviço da Ordem de Cristo. Tal não a impediu de ser mais tarde comendadeira da Ordem de Santiago, provavelmente por não existir uma instituição congénere na Ordem de Cristo. Recordemos que o Infante Dom Henrique nunca casou, pelo que o seu sucessor foi o sobrinho, D. Fernando, Duque de Beja, que na tese portuguesa seria o pai de Cristóvão Colombo.

A comenda da Ordem de Santiago foi transferida para a zona oriental da cidade em 1490, estando o acto de transferência bem documentado pela pena de Garcia de Resende. O que não fica claro é o motivo da mudança. Oficialmente, aquilo que ficou lavrado nos documentos, justifica-se com base na melhoria das condições de vida das senhoras, em atenção à sua alta posição. No entanto, o novo local não apresentava melhores condições, bem pelo contrário, ficando a dúvida se a mudança não se devia apenas à vontade de D. João II ter uma casa de campo, naquilo que era, à data, um arrabalde de Lisboa. O Príncipe Perfeito não chegou a tomar posse do Convento da antiga comunidade feminina da Ordem de Santiago, que foi alugado a um homem muito influente, Fernão Lourenço, feitor da casa da Guiné, posto no qual acumulou uma imensa fortuna, investindo uma parte do seu erário na adaptação do convento à função palaciana. O emprazamento ou aluguer do Palácio, que se mantinha na posse da Comenda Feminina da Ordem de Santiago, reverteria para a coroa logo no reinado de Dom Manuel. Foi aqui, por exemplo, que se celebrou o casamento do “Venturoso” com Dª Isabel, filha dos Reis Católicos. Foi um casamento que anunciava um futuro grandioso para Portugal. A filha dos reis católicos já tinha sido casada com o Príncipe D. Afonso, filho de D. João II, cujo infortúnio haveria de lhe roubar a vida. O príncipe e herdeiro de todas as coroas ibéricas caiu do cavalo quando cavalgava na Ribeira de Santarém e esfumou-se assim o sonho de uma Ibéria unida sob o manto de um rei português.

Dom Manuel haveria de recuperar este plano, casando com a viúva do Príncipe, mas não teve melhor sorte. A rainha morre de parto de Dom Miguel da Paz, o tão ambicionado herdeiro, que sobrevive mas não chega à idade adulta. Ainda hoje pagamos o preço deste casamento ruinoso. Como contrapartida para os Reis Católicos aceitarem esta união, comprometemo-nos a expulsar os judeus. Isto, no ano em que Vasco da Gama chega à Índia e numa altura que precisávamos, mais do que nunca, de homens de negócios capazes de gerir aquele negócio lucrativo que tínhamos nas mãos mas que nunca soubemos potenciar.

Mas nem o “Venturoso”, e muito menos o filho e sucessor D. João III estiveram tão ligados ao palácio como o malogrado D. Sebastião.

O “Desejado” assina o epitáfio da época gloriosa dos descobrimentos henriquinos com a desastrosa aventura de Alcácer Quibir. Dom Sebastião gostava muito de estar neste palácio, tendo sido dali que partiu para a sua odisseia por terras africanas. Segundo uma tradição, foi numa mesa de pedra (que ainda hoje existe) que tomou a resolução de partir para a guerra. Terá sido mesmo na na Igreja de Santos - agora baptizada de Santos-o-Velho, com a transferência da Comenda Feminina da Ordem de santiago para a zona oriental (que ficou Santos-o-Novo) - que ouviu missa pela última vez em Portugal.

Com a morte de Dom Sebastião, o Convento regressa à sua função original, revertendo para a Ordem de Santiago, a sua posse efectiva. No entanto, viria mais tarde a ser mais vendida a uma família muito ilustre: a família  Lencastre, descendentes, por via bastarda, de D. João II. O palácio manteve-se na família até à Repúbica e por esta via, ao longo dos séculos, passaram por este local pessoas tão ilustres como Dona Filipa de Vilhena ou os Marqueses de Abrantes, cujo topónimo na rua do Paço empresta a devida homenagem à gesta de notáveis que por aqui gravitaram.

Já no século XX o palácio foi adquirido pelo Estado francês, onde ainda hoje funciona a Embaixada daquela república. Para usufruto de todos, resta a Igreja, sede da paróquia de Santos-o-Velho, que depois de uma reconstrução operada no final do século XIX, mantém a sua configuração como eu sempre a conheci.

Outras histórias ficaram por contar. Por exemplo foi em Santos-oVelho que se fixou o arraial de D. Juan, quando pôs cerco a Lisboa, embora não saiba se o monarca castelhano se instalou ou não no convento. E foi também nesta paróquia que se situou o célebre Aterro da Boavista, elevado aos píncaros do romantismo em Portugal pela prosa de Eça de Queirós.

No entanto não penso em nada disto quando ali estou. Para mim, Santos-o-Velho será sempre o lugar onde eu cresci e vivi uma infância muito feliz, do qual guardo ternas recordações que jamais esquecerei.

Feliz 2013

publicado por Rui Romão às 00:00
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Sábado, 22 de Dezembro de 2012

Tordesilhas - O Tratado que Mudou o Mundo

Em 1494 o rei português D. João II celebrou com a coroa castelhano-aragonesa, representada pelos reis católicos, um dos mais importantes tratados da história da Humanidade. Foi aquele tratado que determinou que os portugueses tivessem o domínio da Rota do Cabo, que nos permitiria uma grande abastança na primeira metade do século XVI. Foi também este tratado que levou ao estabelecimento das nossas possessões africanas, na maior parte entrepostos de escravos e pontos de escala para fazer aguada nas viagens até à Índia. Ou que o Brasil fosse uma terra onde ainda hoje se falasse o português. Do lado Espanhol, também permitiu a colonização americana, embora tivessem que suportar a concorrência francesa e principalmente inglesa a partir da centúria seguinte.

O tratado de Tordesilhas não foi o primeiro tratado a estabelecer zonas de influência entre portugueses e castelhanos. Em 1479, na vila Alentejana das Alcáçovas, foi assinado um tratado que ficaria conhecido do lado português com o nome do local onde foi firmado (em Espanha seria ratificado em Toledo, sendo conhecido por este nome), onde se pôs fim ao conflito luso-castelhano na sequência do episódio da Beltraneja. O Rei ainda era D. Afonso V, mas de facto quem já tinha as rédeas do governo do reino era o filho. O Príncipe Perfeito não deixou passar esta oportunidade para inscrever no convénio firmado com os reis católicos a definição de áreas de navegação exclusivas, contando com a anuência dos reis católicos, que viriam reconhecida a posse do arquipélago das Canária, resolvendo um diferendo que já vinha deste os tempos do nosso rei D. Afonso IV.

O tratado de Alcáçovas estabelecia uma linha entre as zonas de exploração marítima, numa lógica de mar clausum tão do agrado das monarquias ibéricas. Determinou-se que a zona portuguesa ficaria a sul do paralelo que passa abaixo das Ilhas Canárias, ficando a norte a zona exclusiva castelhana. Esta latitude garantia aos portugueses a possibilidade de chegar à Índia via rota do Cabo, principal desígnio de D. João II, embora não seja possível determinar quando é que começou a surgir este projecto na mente do monarca, não fosse o sigilo a sua imagem de marca.

Este tratado foi alterado na sequência da chegada de Colombo ao continente americano em 1492. Colombo, que vivia em Portugal, tinha proposto a D. João II chegar à Índia navegando para Oeste. A lógica era sustentada. Se a terra era redonda e se a Índia ficava a Oriente, é indiferente navegar para leste ou para Oeste. D. João II sempre desconfiou desse plano – porque sabia muito mais do que Colombo – e não patrocinou este projecto. Foi então que o navegador foi à corte dos Reis Católicos, onde obteve apoio para tentar chegar às tão cobiçadas especiarias.

Colombo chega às Antilhas e contacta com os nativos. Como tinham pele escura mas não eram de raça negra, chega à brilhante conclusão que só poderia ter chegado à Índia! Por esse motivo ainda hoje chamamos Índios aos indígenas americanos! Colombo regressa entusiasmado, mas não foi dar a novidade aos reis católicos, mas sim a D. João II. É neste facto que assenta a teoria de que este seria um agente secreto ao serviço do rei português, que apenas tinha feito esta viagem para distrair os castelhanos e assim poder levar a cabo o seu plano das Índias.

D. João II não ficou muito impressionado. Portugal era na altura o país mais avançado do mundo ao nível da cartografia e de navegações marítimas, não sendo de estranhar que por esse motivo todos os aventureiros, como Colombo, se sentissem atraídos pela corte portuguesa. O Príncipe Perfeito disse imediatamente a Colombo, com base nos cálculos dos matemáticos portugueses, que o local onde o futuro Almirante dos Mares da Índia (!) tinha chegado era um território que, ao abrigo do Tratado de Alcáçovas-Toledo, era uma zona de navegação exclusiva de Portugal. D. João II sabia perfeitamente que Colombo não tinha chegado à Índia, cujo plano seria do conhecimento do Colombo. Está provado que D. João II e Bartolomeu Dias se reuniram com Colombo, na sequência da dobragem do Cabo da Boa Esperança, encontro que teria tido lugar, segundo uma teoria, em Carnide (Lisboa).

Este facto obrigou a uma revisão do antigo tratado de 1479, assinando-se um novo que garantia ao mesmo tempo a possibilidade de levar a cabo os planos de D. João II de chegar à Índia e a posse desse novo território, que viria a ser a América, para Castela. Esse tratado foi assinado em 1494, tendo como diplomata, do lado português, Rui de Sousa, autor desta obra-prima que marcou para sempre a humanidade.

O novo tratado substituía o anterior, determinando que a linha de navegação exclusiva deixaria de ser estabelecida pelo paralelo a sul das Canárias, mas por um meridiano (linha longitudinal) que passava a 370 léguas a oeste da Ilha de Santo Antão (Cabo Verde). Este novo mapa garantia para Portugal a posse de uma grande parte do que é hoje o território do Brasil. Teria D. João II conhecimento da existência daquele território? A dúvida subsiste, no entanto é normal que a coroa portuguesa tentasse garantir a navegação a oeste tão distante quanto possível da costa, porque sabia-se que para dobrar o Cabo da Boa Esperança os navios teriam que se desviar muito da costa Africana, para apanharem os ventos favoráveis que permitiam chegar ao Oceano Índico. Como tal, é compreensível que D. João II tenha ido tão longe quanto possível na determinação do Meridiano.

A linha do Tratado de Tordesilhas foi alterada mais tarde, motivado pela posse das Molucas – onde os portugueses chegaram faz precisamente 500 anos (1512) – mas que ambas as coroas reclamavam para si. O tratado foi contudo respeitado por ambas as partes, o que é notável dada a rivalidade existente. O problema foi que o mar não era fechado e a concorrência de Ingleses e Franceses a oeste (lado Castelhano) e de Holandeses a Oriente (lado português) causariam o declínio das nações ibéricas como senhoras dos mares. A linha do Brasil não foi respeitada, mas por um motivo diferente. Na vigência da União Ibérica, de 1580 a 1640, os portugueses lançaram-se na exploração do sertão brasileiro, ficando conhecidos como os “Bandeirantes”. Não fosse a união ibérica, e as fronteiras do Brasil seriam consideravelmente diferentes, em prejuízo da enorme extensão do potentado sul-americano. 

E como é que Colombo, o tal filho de um tecelão genovês, consegue frequentar a corte do austero D. João II, casando-se com uma fidalga da Ordem de Santiago - filha do grande Bartolomeu Perestrelo, “descobridor” da Madeira - e chega a Almirante dos Mares da India? Trata-se de um terreno pantanoso, sobre o qual me debruçarei no próximo post.

       

 

publicado por Rui Romão às 16:32
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012

Tanta História nas Alcáçovas

 

 Por estes dias estive nas Alcáçovas, uma pequena e pitoresca vila alentejana, onde me demorei um par dias. Na vila, a antiguidade transborda em cada canto, mas nem por isso se tem valorizado esse património. O principal monumento deste passado ilustre e afidalgado, o Paço das Alcáçovas, está numa triste ruína. Na vila comemora-se neste ano os 500 anos do foral manuelino, mas fora isso, nada ali nos remete para os acontecimentos que marcaram a História Universal, e que tiveram lugar nesta vila. Não me enganei, nem me deixei arrebatar pela revolta que sinto por ver o nosso património mais valioso ao abandono, aqui passaram-se eventos que mudaram a face do mundo. Cita-se sempre como acontecimento de grande importância o Tratado de Alcaçovas, firmado em 1479 entre a coroa de Castela e Portugal, onde se põe fim à guerra da Beltraneja e se esboça pela primeira vez a divisão do mundo em 2 áreas de influência. Este facto é verdadeiro e de grande relevância, mas existem outros dois eventos, passados na mesma vila das Alcaçovas, que parecem não estar relacionados entre si, mas que em conjunto contribuíram para a configuração actual do continente europeu e americano. Por ordem cronológica, comecemos por 1457, nesse ano nas Alcáçovas celebrava-se um duplo casamento. A infanta Dona Beatriz, filha do infante D. João, casava com D. Fernando, filho de D. Duarte e Dona Isabel, também filha de D. João, casava com D. João II, rei de Castela. O primeiro casamento gerou prole tão ilustre como o Rei D. Manuel e a Rainha Dona Leonor e o segundo o do Rei D. Henrique IV e de Isabel a Católica. Não sei se foi pela ligação sentimental que tinha a esta vila, mas foi neste mesmo local que Isabel a Católica celebrou com o Rei de Portugal D. Afonso V o tratado que haveria de selar definitivamente a sua realeza, colocando um ponto final à guerra da Beltraneja, tão nefasta para as nossas hostes, estabelecendo também uma definição de áreas de influência numa altura em que a Índia já andava na mente do Príncipe perfeito. O tratado tem a mão de D. João II, porque o Rei seu pai já se encontrava entregue à melancolia que o acompanhou nos últimos anos de vida, estabelecendo também um acordo de casamento entre o príncipe D. Afonso, filho de D. João II, e a Princesa Isabel, filha dos Reis Católicos. Como os nubentes ainda eram crianças estabeleceram-se a célebres terçarias de Moura. As terçarias consistiam na custódia dos príncipes até atingirem a maioridade, à guarda da Infanta Dona Beatriz. Os príncipes vieram a casar, mas as terçarias foram desfeitas pouco depois da coroação de D. João II, talvez por não confiar na Infanta, que era também sua sogra. Esta desconfiança era recíproca e perfeitamente compreensível. Recorde-se que Dom João II enviou para o cadafalso o Duque de Bragança, que era genro de Dona Beatriz – obrigando a mulher a homiziar-se em Espanha – e matou outro seu filho, D. Diogo, Duque de Viseu, ambos sob a acusação de atentarem contra a sua própria vida. Com a morte do Infante D. Afonso numa queda de cavalo na Ribeira de Santarém, colocou-se o problema da sucessão. O Rei tinha um filho bastardo, D. Jorge, Mestre da Ordem de santiago, que não conseguiu legitimação pelo Papa, onde não faltou a pressão de Dona Leonor, sua mulher e filha da Infanta Dona Beatriz, que tinham em Roma um seu fiel servidor, Dom Jorge da Costa, cardeal de Alpedrinha, que terá tido um papel importante neste desfecho. Sem herdeiro legítimo, o Príncioe Perfeito acabou por designar como sucessor o familiar mais próximo, que viria a ser Dom Manuel I, seu cunhado e também filho da Infanta Dona Beatriz. Foi neste Paço das Alcáçovas que D. João II mandou lavrar o seu testamento, designando o sucessor quando se encontrava a caminho das Termas de Monchique, onde procurava alívio para as dores que o apoquentavam. Ainda tentou encontrar-se com D. Manuel, que na altura era Duque de Beja, mas Dona Leonor conseguiu demover o irmão, talvez por receio que lhe acontecesse o mesmo que ao irmão mais velho, assassinado em Setúbal, às mãos dos algozes do Rei. Destes três acontecimentos passados nesta vila: o casamento das infantas, o tratado de Alcáçovas e a designação de Dom Manuel como Rei estão relacionados e alteraram profundamente a História da Humanidade. Foi aqui que se legitimou a realeza de Dona Isabel a “Católica”, que casou com Fernando de Aragão e deu origem ao país que hoje se chama Espanha. Foi aqui que se dividiu o mundo, tratado que só foi alterado em 1494, na sequência da descoberta do continente americano por Colombo, ao serviço destes mesmos reis católicos, mudando a face de todo o continente americano. E foi também aqui que casaram os pais de Dom Manuel I e onde este foi designado rei de Portugal, no reinado do qual descobrimos o caminho marítimo para a Índia e o potentado que é hoje o Brasil. Tudo isto nesta pacata e serena vila alentejana.

publicado por Rui Romão às 08:37
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Biografias

Almada Negreiros escreveu um dia que o ano mais feliz da sua vida seria 1993, ano em que o país inteiro comemoraria o centenário do seu nascimento. A previsão revelou-se pouco acertada, passando a efeméride bem despercebida na sociedade portuguesa. O mesmo não poderia dizer o seu amigo Fernando Pessoa, que embora nunca o tenha dito taxativamente, não terá duvidado da sua glória póstuma. Em 1986 foi transladado para os Jerónimos e em 1988, ano do seu centenário, o país rendeu-lhe uma enorme homenagem. Já um dia escrevi sobre este assunto, atrevendo-me a alvitrar que nem nos melhores sonhos Pessoa poderia antever a dimensão que atingiria a sua obra (apesar de este não ser modesto), e que essa glória, no seu zénite, pudesse ser testemunhada pela sua única amada, Ofélia Queiroz.

Estes dois exemplos ilustram bem a dificuldade em fazer projecções a longo prazo sobre a forma como a obra será valorizada pelas próximas gerações. Conhecem-se inclusivamente casos clássicos de obras que nos chegaram até hoje, porque não foi cumprida a vontade dos seus autores. Os casos clássicos são o de Virgílio, que pediu que destruíssem a sua “Eneida”, ou de Franz Kafka, que também quis que a sua obra, onde se destacam obras-primas como “O Processo”, não sobrevivessem à sua passagem pelo mundo. Em ambos os casos, a vontade dos autores não foi respeitada e a humanidade ficou a ganhar, embora também se tenha que avaliar esta questão no plano ético.

No caso português, Santa-Rita Pintor, na hora da morte (bastante prematura, diga-se) pediu para que destruíssem todos os seus quadros, porque entendia que o seu talento não tinha tido tradução na qualidade da sua obra. A vontade foi cumprida e hoje aquele que foi o introdutor do futurismo na pintura portuguesa está completamente esquecido.

Se não podemos fazer um balanço do que foi a nossa vida na hora da morte, também não podemos traçar o destino de ninguém na hora do seu nascimento. São inúmeros os exemplos que desafiam esta lógica. Na grande epopeia dos descobrimentos, os dois protagonistas desta empresa, Vasco da Gama e Dom Manuel, são heróis completamente improváveis.

Vasco da Gama era filho 2º do Alcaide Mor de Sines. Imagine-se, um filho segundo de um alcaide, que dependia da Ordem de Santiago, cujo mestre era o grande rival do Rei Dom Manuel - por ser filho do seu antecessor, embora a bastardia lhe tenha impedido de aceder ao trono. Como é que o filho cadete de um alcaide que estava na dependência da Ordem de Santiago, cujo Mestre era Dom Jorge, ostracizado por Dom Manuel, vai chefiar uma armada da Ordem de Cristo, cujo mestre era o próprio Rei? O facto de ter sido Vasco da Gama e não o seu irmão mais velho, Paulo da Gama, pode dever-se à saúde débil deste último – que viria, de resto, a falecer no regresso da viagem da Índia. No entanto, a resposta para a questão de fundo repousa, na minha opinião, no tacto político de Dom Manuel, de que deu inúmeras provas no seu reinado, ao não pôr de parte os homens de confiança de Dom João II . Afonso de Albuquerque, que era um dos Ginetes de Dom João II, veio a ser Vice- Rei da Índia, é outro bom exemplo desta política.

Dom Manuel foi Rei ao arrepio de todas as probabilidades. Ele era o 8º filho(!) de um infante. Como vigorava a lei sálica, poderia subir alguns lugares na linha de sucessão por ser homem. No entanto, ele tinha, nada mais, nada menos, do que cinco irmãos mais velhos.

Filho do infante Dom Fernando, sobrinho e herdeiro do Infante Dom Henrique, e de Dona Beatriz, também sobrinha do Infante, era cunhado de Dom João II, que casou com a sua irmã, Dona Leonor. Viu o seu irmão mais velho, Dom Diogo, ser morto às mãos do Rei, por estar a planear um golpe para o eliminar. Foi este facto, associado à morte do sobrinho, Dom Afonso, à não legitimação do Mestre de Santiago, e à morte natural dos seus irmãos mais velhos, que o levou ao trono.

Em suma, a História não se escreve nem quando nascemos nem quando morremos mas pelo que alcançamos neste hiato. Eça escreveu um dia que ele não tinha história, era como a República de Andorra. Enganou-se. Ele foi grande e por isso ficou na História. E neste grupo restrito só ficam os que conseguem deixar um legado importante para os vindouros. É esta a mensagem que eu gostaria de deixar ao Vasco, um dia que ele leia estas linhas.

publicado por Rui Romão às 08:40
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