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Sábado, 23 de Março de 2013

O Herói dos Heróis

Não tivesse como rotina, principalmente às sextas-feiras, ir a Campo de Ourique buscar o meu filho à escola e, provavelmente, nunca me teria surgido a ideia de escrever este texto, apesar da plena consciência da reflexão que aqui aduzirei. Habitualmente passo pela Rua Coelho da Rocha, onde está sediada a Fundação Fernando Pessoa, última morada do escritor no reino dos vivos. Um pouco mais à frente, a umas escassas centenas de metros, fica a Igreja do Santo Condestável, a última morada de Nuno Alvares (no reino dos mortos).

Numa associação rápida realizei algo que até então me tinha passado em claro. A Casa Fernando Pessoa, criada para homenagear o grande poeta, apenas existe porque no século XIV existiu um herói que, contra a opinião dominante, ousou acreditar que era possível manter Portugal como um país livre e independente. Acreditou que conseguíamos, com a nossa força e tenacidade, vencer o arrogante castelhano que nos queria submeter. Foi este herói que abriu caminho para a Dinastia de Avis, obreira da expansão portuguesa, que nos elevou à condição de potência planetária, percursora da globalização. Foi sob o manto e a coroa de monarcas de Avis que explorámos a Costa de África e chegámos à Índia. Não satisfeitos, descobrimos e colonizámos o Brasil. Ninguém conseguiu exprimir esta obra de forma tão bela como Camões:

 

De África tem marítimos assentos

É na ásia mais que todas soberana

Na quarta parte nova os campos ara

E, se mais mundo houvera, lá chegara

 

Camões não sabia que existia Oceânia, mas também nesse continente deixámos um legado histórico. Hoje não oferece dúvidas que foram os portugueses, talvez Cristóvão de Mendonça, os primeiros ocidentais a pisar solo Australiano.

Fernando Pesssoa, tal como Camões, deve a sua glória (em ambos os casos póstuma) à singularidade de conseguirem criar uma obra em português, para falantes de português e com um poder político constituído por portugueses. Fossemos nós apenas uma região espanhola, mesmo que conservássemos uma língua própria, sempre subalterna face à língua franca que seria inevitavelmente o castelhano (como sucede nas regiões espanholas, como por exemplo na Catalunha), e nunca Camões e Fernando Pessoa teriam expressão. O primeiro porque a sua obra, profundamente nacionalista e encomiástica face à nação portuguesa, não teria fonte de inspiração se perdêssemos em Aljubarrota e não tivéssemos expansão. Não existiriam na galeria dos heróis homens como Afonso de Albuquerque, Duarte Pacheco ou Vasco da Gama – para não falar do próprio Nuno Alvares.

O segundo provavelmente não deixaria de ser um grande poeta mas em língua inglesa, não estivesse o seu inegável talento já plasmado nos seus poemas de juventude, escritos na língua de Shakespeare, idioma que dominava completamente devido à sua estadia na África do Sul.

 

Seria injusto evocar apenas a obra épica no legado dos nossos dois maiores poetas. Na lírica camoniana a Canção X, profundamente autobiográfica, seria uma obra-prima em qualquer língua, embora o seu interesse seja concitado principalmente pela tentativa de compreender melhor o poeta, cuja passagem pelo mundo foi bastante parca em documentos.

Pessoa deixou-nos uma arca com milhares de páginas, cujo alcance ainda demorará muitas décadas a apurar. Bastaria evocar o verso de Ricardo Reis, que adoptei como autêntico lema de vida - “Para ser grande, sê inteiro” – para exemplificar o alcance da sua obra. 

         

Não é só Pessoa e Camões que devem a sua obra a homens da gesta de Nuno Alvares. Somos todos nós, que temos esta dívida pelo herói dos heróis portugueses. É a importância deste legado que não me cansarei de evocar ao longo da vida. 

publicado por Rui Romão às 18:40
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Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

Dois Lisboetas Célebres

Santo António e Fernando Pessoa. Quis o destino que os Lisboetas com maior projecção no exterior estivessem ligados ao mesmo dia: 13 de Junho. Um porque nesse dia nasceu, outro porque faleceu, com a particularidade de terem o mesmo nome. Bem, aqui já não se pode falar de coincidência, porque o nome de Fernando Pessoa se ficou a dever ao do santo celebrado no dia do seu nascimento.

Começando por Santo António, apenas adoptou este nome em Coimbra, quando ingressou num convento franciscano. Nascido junto da sé de Lisboa, teve como nome de baptismo Fernando Martins, embora também lhe chamem de “Bulhões”, alcunha do pai, provavelmente cobrador de impostos (porque bulhão era uma moeda corrente, dando nome, por exemplo, ao célebre mercado portuense), não sendo de excluir a sua condição de semita. O jovem Fernando pode estudar, primeiro em São Vicente de Fora e mais tarde foi para Santa Cruz de Coimbra, principal centro cultural na idade média, condição que manteve até ao século XX. Estava em Coimbra quando chegou a notícia da morte dos pregadores franciscanos que foram em missão de evangelização para o norte de África. Esta notícia chocou-o profundamente e terá sido o mote para abandonar os frades crúzios e juntar-se aos franciscanos em Santo António dos Olivais, também na cidade de Coimbra, onde renegou à sua vida anterior, mudando inclusivamente de nome para António, numa homenagem a Santo Antão do Deserto, e tomando a resolução de também ele ir para as praias marroquinas como missionário. A partir daqui existem muitas lendas. Diz-se que embarcou para Marrocos mas que foi acometido por um temporal que o levou até à península itálica. Não é de excluir que tenha ido directamente para Itália sem passar pela tormenta marítima, onde viria a conhecer São francisco de Assis. Fixou-se em Pádua, onde pela eloquência da sua palavra depressa ganhou fama de santo. A veneração seria reconhecida pela Igreja de Roma após a sua morte, consagrando-lhe um lugar nos altares. O seu prestigio não é menor em Lisboa, apesar de não ser o padroeiro  da cidade (é São Vicente), mas há muito que assume essa condição de facto. São Vicente nunca entrou na alma popular, provavelmente por ser estrangeiro, ao passo que Santo António entranhou-se profundamente no espirito bairrista que anima a capital. Outra curiosidade é a dimensão fortemente pagã que Santo António adquire em Lisboa. É o santo folgazão, casamenteiro, que anima os bailaricos das festas populares, o que é um paradoxo insuperável à luz daquilo que foi a sua vida terrena e bem diferente da devoção que lhe prestam em Pádua.

Fernando Pessoa não partilha com este Santo Popular apenas o nome (Fernando António). Também ele saiu de Portugal, embora ainda em criança e porque acompanhou a sua mãe, que casou em segundas núpcias com o cônsul Português em Durban. Foram 10 anos, dos 7 aos 17, que Pessoa passou fora de Portugal. Foi aluno distinto e a condição de bilingue que adquire na África do Sul deu-lhe possibilidade de escolher se no futuro queria trilhar o seu destino na língua de Camões ou de Shakespeare. Falou mais alto a sua pátria de nascimento, regressando para cursar letras, curso que nunca concluiu, mas sobretudo para se tornar um poeta português. Vivia animado pela ideia de ser o super Camões que os novos tempos pediam. Daí a sua indiferença face ao poeta de “Os Lusíadas”. Na “Mensagem”, onde escreve sobre várias personalidades, não lhe dedica um único verso e na sua biblioteca não consta uma única obra sua, nem sequer a sua obra-prima, vista como obrigatória na biblioteca de qualquer aspirante a escritor. Desistindo do curso, começou a trabalhar como tradutor e correspondente comercial em escritórios de Lisboa, embora nunca tenha aceite um emprego a tempo inteiro, para poder dedicar-se à sua obra. A única vez que pretendeu a um emprego em horário completo foi já no final da vida, quando se candidatou ao cargo de bibliotecário no Museu dos Condes de Castro Guimarães, em Cascais, quando desejava afastar-se da capital, para procurar algum alívio para as suas tormentas físicas e psicológicas.

Foi um escritor compulsivo, criando uma miríade de heterónimos, embora fiquem para a história os 3 poetas: o bucólico e naturalista Alberto Caeiro, o clássico e conservador Ricardo Reis e o cosmopolita e sensacionalista Álvaro de Campos. Jorge de Sena chega a aventar a hipótese de Fernando Pessoa, nome sob o qual publica a “Mensagem”, ser também ele um heterónimo e Álvaro de Campos o Ortónimo, embora a riqueza da obra pessoana não nos autorize conclusões tão lapidares.

Morreu quase como um anónimo, mas nunca teve dúvidas da sua glória póstuma. No entanto, não acredito que pensasse que o seu reconhecimento fosse ao ponto da sua transladação para os Jerónimos. Hoje é um poeta conhecido nos 4 cantos do mundo, sendo mais reconhecido inclusivamente no Brasil do que na sua pátria de nascimento, onde é o principal embaixador da cultura portuguesa.

Como lisboeta, rendo a minha homenagem a estes meus dois conterrâneos, no dia da nossa cidade.      

publicado por Rui Romão às 01:24
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Domingo, 10 de Junho de 2012

Dia de Camões

 

Hoje comemora-se o dia de Portugal. Outrora denominado por “Dia da Raça”, tem actualmente a designação de Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas. É motivo de orgulho para um país onde os eternos “Velhos do Restelo” tudo deturpam, tudo vilipendiam, tudo apequenam, que o dia da nacionalidade seja alusivo a um poeta. É óbvio que não se trata de um poeta qualquer, trata-se do poeta mais influente da língua portuguesa. Não digo que seja o maior poeta português, porque teve que rivalizar, já praticamente nos nossos dias, com a sombra de Fernando Pessoa. Não se pode dizer que a poesia pessoana seja no seu épico “A mensagem” comparável com os “Lusíadas”. A diferença é que Pessoa foi muito para além da epopeia (de cariz marcadamente sensacionalista, bem distante do barroco literário de Camões), numa obra que, segundo um seu biógrafo recente, chegaria às 30.000 páginas, num total de mais de 200 heterónimos. Pessoa é hoje um poeta cosmopolita, cuja projecção externa suplanta largamente a de Camões, cuja obra, por ser quase obcessivamente portuguesa, não demonstra a mesma capacidade de se impôr no exterior. Fernando Pessoa, no imenso acervo de papéis, que inclui inúmeras cartas pessoais, deu a sua opinião sobre quase todas as figuras de relevo do seu tempo. Nesse particular, mostrou ter uma língua particularmente viperina, não poupando personalidades do seu tempo até então quase sagradas, como Eça de Queirós (a quem chama provinciano), Afonso Lopes Vieira (denunciando a sua infantilidade) ou Guerra Junqueiro, poeta que admirava na juventude mas que mais tarde consideraria “fraco” (António Sérgio era da mesma opinião).

Sobre Camões, Pessoa escreveria que tinha uma obra muito desigual. A lírica não tinha rasgo, sendo de valor sobretudo o épico. No entanto, mesmo no épico, denuncia a falta de imaginação, que segundo ele não foi além da figura do Adamastor. Curiosamente, a mesma crítica – falta de imaginação – lhe é apontada pelo Brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, embora o biógrafo limite essa característica apenas à escolha de situações e nomes, que Pessoa retirava do que lhe estava próximo (objectos e pessoas), num exercício que apesar de interessante, não fecha a porta à especulação.

Devo dizer que não me posso rever na crítica que Pessoa faz à obra de Camões. Em primeiro lugar, porque a lírica camoniana é bastante interessante, pnão fosse ela profundamente autobiográfica. Num poeta que não deixou rasto nem documentos (para além da sua prisão na Cadeia do Tronco, por dar uma cutilada num empregado do paço) a sua lírica é fundamental para encontrar o fio condutor da sua vida. Para além do interesse autobiográfico, a lírica camoniana tem igualmente poemas onde o poeta coloca todo o seu génio e talento, como por exemplo na Canção X.

Quanto ao épico "Lusiadas", é revelador de uma sólida cultura, dos clássicos e também das crónicas, o que não deixa de ser notável para alguém que, ao que tudo indica, nunca teve formação numa universidade. Sendo escudeiro, o que era uma classe de servidores dos nobres, mas que não lhe conferiam esse estatuto, esteve ao serviço dos Condes de Linhares, o que acabou por ser a sua perdição, pelo indisfarçado sentimento pela sua ama, Dª Violante de Andrade. Sendo plebeu e não tendo meios de fortuna, como conseguiria tornar-se culto ao ponto de escrever uma obra tão notável como os Lusíadas? Eu penso que o próprio Camões dá a resposta no Canto X, estância 154, nos "Lusiadas" onde se dirige ao próprio Rei D. Sebastião:

 

Mas eu que falo, humilde, baixo e rudo

de vós não conhecido nem sonhado?

Da boca dos pequenos sei, contudo,

que o louvor sai às vezes acabado.

Nem me falta na vida honesto estudo,

com longa experiência misturado,

nem engenho, que aqui vereis presente,

cousas que juntas se acham raramente

 

Esta estância é completamente esclarecedora e definitiva da condição social e da forma como ele se via a si próprio. Nos dois primeiros versos ficamos a saber que é de baixa condição social e que não frequentava a corte: “de vós não conhecido ou sonhado”. No 3º e 4º reforça a sua baixa condição social e algum sentimento de ingratidão, pelos louvores dados a outros que não terão o seu talento. A estância termina com o auto-elogio. Camões explica como adquiriu o seu conhecimento “nem me falta na vida honesto estudo, com longa experiência misturado”, ou seja a sua escola foi na vida, estudando e aprendendo com a sua experiência. Culmina a estrofe mencionando o seu talento, que associado ao seu trabalho honesto “juntas se acham raramente”. Esta estrofe “despe” completamente Camões dos mitos da sua fidalguia e da sua cultura académica. No entanto, também não comprova a teoria, também muito veiculada, de que tenha morrido na miséria. Para começar, porque entre a data de publicação dos "Lusíadas"(1572) e a morte, a 10 de Junho de 1580, ainda medeiam 8 anos. Está documentado que depois da publicação da sua obra-prima, foi-lhe concedida uma tença, que não sendo nenhuma fortuna, daria algum amparo. Também não está provado que tivesse um criado que lhe pedia esmola para si. Se tivesse assim tão depauperado, podia fazer algo muito mais fácil que seria vender o próprio escravo – o Jau (significa que era natural da ilha de Java).

A biografia de Camões nunca estará completa, mas o poeta também não precisa dela para ser consagrado como o Príncipe das letras portugueses, numa corte onde também têm lugar Fernando Pessoa, Eça de Queirós e o Padre António Vieira.

Neste 10 Junho, viva Portugal. 

publicado por Rui Romão às 00:01
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Biografias

Almada Negreiros escreveu um dia que o ano mais feliz da sua vida seria 1993, ano em que o país inteiro comemoraria o centenário do seu nascimento. A previsão revelou-se pouco acertada, passando a efeméride bem despercebida na sociedade portuguesa. O mesmo não poderia dizer o seu amigo Fernando Pessoa, que embora nunca o tenha dito taxativamente, não terá duvidado da sua glória póstuma. Em 1986 foi transladado para os Jerónimos e em 1988, ano do seu centenário, o país rendeu-lhe uma enorme homenagem. Já um dia escrevi sobre este assunto, atrevendo-me a alvitrar que nem nos melhores sonhos Pessoa poderia antever a dimensão que atingiria a sua obra (apesar de este não ser modesto), e que essa glória, no seu zénite, pudesse ser testemunhada pela sua única amada, Ofélia Queiroz.

Estes dois exemplos ilustram bem a dificuldade em fazer projecções a longo prazo sobre a forma como a obra será valorizada pelas próximas gerações. Conhecem-se inclusivamente casos clássicos de obras que nos chegaram até hoje, porque não foi cumprida a vontade dos seus autores. Os casos clássicos são o de Virgílio, que pediu que destruíssem a sua “Eneida”, ou de Franz Kafka, que também quis que a sua obra, onde se destacam obras-primas como “O Processo”, não sobrevivessem à sua passagem pelo mundo. Em ambos os casos, a vontade dos autores não foi respeitada e a humanidade ficou a ganhar, embora também se tenha que avaliar esta questão no plano ético.

No caso português, Santa-Rita Pintor, na hora da morte (bastante prematura, diga-se) pediu para que destruíssem todos os seus quadros, porque entendia que o seu talento não tinha tido tradução na qualidade da sua obra. A vontade foi cumprida e hoje aquele que foi o introdutor do futurismo na pintura portuguesa está completamente esquecido.

Se não podemos fazer um balanço do que foi a nossa vida na hora da morte, também não podemos traçar o destino de ninguém na hora do seu nascimento. São inúmeros os exemplos que desafiam esta lógica. Na grande epopeia dos descobrimentos, os dois protagonistas desta empresa, Vasco da Gama e Dom Manuel, são heróis completamente improváveis.

Vasco da Gama era filho 2º do Alcaide Mor de Sines. Imagine-se, um filho segundo de um alcaide, que dependia da Ordem de Santiago, cujo mestre era o grande rival do Rei Dom Manuel - por ser filho do seu antecessor, embora a bastardia lhe tenha impedido de aceder ao trono. Como é que o filho cadete de um alcaide que estava na dependência da Ordem de Santiago, cujo Mestre era Dom Jorge, ostracizado por Dom Manuel, vai chefiar uma armada da Ordem de Cristo, cujo mestre era o próprio Rei? O facto de ter sido Vasco da Gama e não o seu irmão mais velho, Paulo da Gama, pode dever-se à saúde débil deste último – que viria, de resto, a falecer no regresso da viagem da Índia. No entanto, a resposta para a questão de fundo repousa, na minha opinião, no tacto político de Dom Manuel, de que deu inúmeras provas no seu reinado, ao não pôr de parte os homens de confiança de Dom João II . Afonso de Albuquerque, que era um dos Ginetes de Dom João II, veio a ser Vice- Rei da Índia, é outro bom exemplo desta política.

Dom Manuel foi Rei ao arrepio de todas as probabilidades. Ele era o 8º filho(!) de um infante. Como vigorava a lei sálica, poderia subir alguns lugares na linha de sucessão por ser homem. No entanto, ele tinha, nada mais, nada menos, do que cinco irmãos mais velhos.

Filho do infante Dom Fernando, sobrinho e herdeiro do Infante Dom Henrique, e de Dona Beatriz, também sobrinha do Infante, era cunhado de Dom João II, que casou com a sua irmã, Dona Leonor. Viu o seu irmão mais velho, Dom Diogo, ser morto às mãos do Rei, por estar a planear um golpe para o eliminar. Foi este facto, associado à morte do sobrinho, Dom Afonso, à não legitimação do Mestre de Santiago, e à morte natural dos seus irmãos mais velhos, que o levou ao trono.

Em suma, a História não se escreve nem quando nascemos nem quando morremos mas pelo que alcançamos neste hiato. Eça escreveu um dia que ele não tinha história, era como a República de Andorra. Enganou-se. Ele foi grande e por isso ficou na História. E neste grupo restrito só ficam os que conseguem deixar um legado importante para os vindouros. É esta a mensagem que eu gostaria de deixar ao Vasco, um dia que ele leia estas linhas.

publicado por Rui Romão às 08:40
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2012

D. Sebastião, o "Desejado" Desde Quando?

Se existe um denominador comum aos dois maiores poetas portugueses, para além do seu talento indiscutível, são os versos encomiásticos que dirigiram a D. Sebastião. Se no caso de Camões isso seria praticamente obrigatório, no caso de Pessoa essa devoção sempre foi um mistério para mim. Os Lusíadas são publicados em 1572, em pleno reinado de D. Sebastião, pelo que é normal que Camões dedicasse a obra ao ilustre descendente daquela gesta ilustre de que nos fala a sua obra-prima. Mas Camões não se ficou pelo elogio, na última estrofe incentiva-o a continuar os feitos notáveis de seu avós, que era, diga-se, voz corrente na altura para fazer face às dificuldades crescentes, que nem sequer poupavam as classes mais privilegiadas. O país estava sedento de um projecto mobilizador e achava-se que a porta de saída do marasmo em que tínhamos mergulhado era a conquista de Marrocos. Para Pessoa, o rei “Encoberto” talvez tenha sido mais uma charneira entre o Império Manuelino do século XVI e o seu imaginário “V Império”, em pleno século XX, forjado nos versos dos poetas. Voltaríamos a ser grandes, a ter o mundo nas mãos, mas num Império espiritual, místico, que começaria com o regresso de D. Sebastião, ponto de inversão desta trajectória descendente que seguíamos desde o seu desaparecimento nas praias marroquinas.

O mito do regresso de D. Sebastião é talvez o fenómeno mais conhecido da História de Portugal, embora por vezes não seja compreendido em toda a sua plenitude. Em primeiro lugar, estaríamos a ser desonestos se atribuíssemos a D. Sebastião a excusiva responsabilidade pela decadência portuguesa, que ninguém discute que teve lugar no final da Iª metade do século XVI, mas que é anterior ao seu reinado. Com D. João III, seu avô, já nos debatíamos com a concorrência que nos moviam os holandeses nos mares da Índia, e faltava um plano estratégico que nos permitisse gerir um Império espalhado por quatro continentes. O único facto positivo, foi o abandono das praças do norte de África, que nunca serviram para nada, para além de ser um sorvedouro de recursos do reino.

Para este cenario sombrio, contribuiu ainda a expulsão dos judeus, grandes senhores da finança, que dominavam o comércio das Índias, e que se acentuou com o estabelecimento da inquisição em 1536. Não é por acaso que ainda hoje dizemos a alguém, quando não queremos que faça algo, para ter cuidado que se pode queimar…

Ao contrário do que se possa pensar, D. Sebastião não foi só “o desejado” depois da sua inglória partida para Alcácer Quibir. Ainda não tinha nascido e já o era, não estivesse o Reino a suspirar por um varão que pudesse suceder ao seu avô, D. João III. Isto porque o seu pai, príncipe D. João, era o único filho homem que podia suceder ao “Piedoso”. Parece que teve sempre uma saúde muito frágil. Ainda o conseguiram casar com uma filha do Imperador Carlos V, mas morreu quando a sua mulher estava grávida deste menino. Deste menino, digo eu agora. Na altura, ninguém sabia se era menino ou menina, até que a criança efectivamente nascesse. Começou aí o epíteto de “O Desejado”, porque o Reino rezava por um varão que pudesse chegar a Rei. As preces divinas foram atendidas e em 1554 nasceu um menino, única vergôntea real. Três anos depois, morre D. João III, e essa criança é o novo Rei de Portugal. A regência é ocupada primeiro pela sua avó, D. Catarina, e mais tarde pelo Cardeal D. Henrique, seu tio-avô, que na altura era Inquisidor Mor e viria a ser o último monarca da Casa de Aviz.

A saúde do novo rei era uma preocupação constante, porque era aquela criança o penhor da independência portuguesa,  e era crucial que pudesse chegar à idade adulta e casar, para dar ao reino descendentes. Voltou a cumprir-se o desejo da nação. O jovem Rei completou 14 anos, idade em que se atingia a maioridade, e começou o seu reinado pessoal. A partir daqui é que a situação se complicou. Não tanto pelos devaneios que lhe povoavam a mente, que outros monarcas não tiveram em menor grau, e que tinham ressonância na sociedade de então, mas pela sua completa aversão a mulheres. Não faltaram tentativas para o casar, mas o Rei nunca manifestou o mais leve indício de querer contrair matrimónio para dar um herdeiro à já velha monarquia fundada por D. Afonso Henriques. E foi sem casar, nem perspectivas disso, que se meteu naquela aventura pelo norte de África que nos colocou praticamente debaixo do jugo espanhol. Não discuto sequer a batalha em si, porque não existem relatos conclusivos sobre o que terá sucedido ao Rei nesse dia 4 de Agosto de 1578.  O que relevo, é que esta data, que podia ser a certdão de óbito do Sebastianismo, acabou por ser um passaporte para a eternidade, com maior populariade em períodos de dificuldade, ou não vivessemos nós também em dias sombrios.   

publicado por Rui Romão às 09:03
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Longe da Vista, Perto do Coração

Vivemos uma fase particularmente complicada da nossa História. As dificuldades são imensas e não existe qualquer luz ao fundo do túnel. Falta esperança, faltam ideias, faltam causas que nos mobilizem. Cumprir défices não apaixona ninguém. É por isso um tempo propício à reflexão. Pensar porque motivo chegámos aqui e, mais importante ainda, propor algo de novo que nos levante a moral, que nos faça sonhar, que nos catapulte para fora deste abismo. O queixume tornou-se quase uma religião, mas faltam as soluções fora do quadro mental tão em moda nestes dias. Parece que  a única solução para todos os nossos problemas será empobrecermos!

Foi com esta conjuntura em pano de fundo, que no meio de uma reflexão pessoal me ocorreu algo que até aqui nunca me tinha apercebido: os mais lúcidos pensadores, as mentes mais brilhantes que o nosso país gerou, viveram todos, sem excepção, em períodos particularmente difíceis e curiosamente (ou não) passaram largas temporadas no estrangeiro.

Seguindo uma sequência cronológica, lembro-me de Camões, que para além da magnífica obra lírica que nos legou, escreveu o mais comovente documento de exaltação da glória do povo português - Os Lusíadas - e que viveu numa época decadente, com uma inquisição castradora, a carreira das indías ameaçada por holandeses e a independência presa por arames nas mãos de uma criança perturbada (D. Sebastião). Camões andou pela India, por Macau, foi naufrago e regressou à sua pátria, onde lhe concederam uma tença, irregularmente paga, pela publicação do seu monumental épico.

O padre António Vieira, o Imperador da Língua Portuguesa, foi muito novo para o Brasil onde se distinguiu como orador e como defensor dos direitos dos índios, provou estar tão à vontade nas selvas da américa, como nas cortes europeias. Foi escolhido para se deslocar à corte de D. João IV para lhe prestar obediência e terá impressionado tanto o "Restaurador" que este o convidou para usar a sua enorme capacidade oratória na defensa da sua causa nos centros de poder do velho continente. Viveu num período de incerteza em que todo o erário régio era destinado a uma guerra que haveria de durar muito para além da sua vida. A liberdade de pensamento valeu-lhe a inquisição no encalço, principalmente depois da morte do Rei, seu protector. É do padre António Vieira a frase que melhor explica os feitos que este pequeno país à beira-mar plantado logrou alcançar "um palmo de terra para nascer, o mundo inteiro para morrer". Os seus sermões, que se dedicou a passá-los por escrito no fim da vida, são das mais belas páginas jamais escritas em português. 

Eça de Queirós sobraçou a vida diplomática depois de uma curta passagem pelo jornalismo (em Évora) e pelo funcionalismo público (em Leiria), o que o  levou a cidades tão distintas como Havana, Bristol, Newcastle ou Paris, onde passou a maior parte da sua idade adulta. Aí escreveu as suas obras-primas, colocando a nu as fragilidades da sociedade do seu tempo, estiolada pelo anacronismo religioso, pelo caciquismo político e pelo raquitismo mental e cultural.

Contemporâneo de Eça, Fernando Pessoa talvez se tenha cruzado com o autor de "Os Maias" no Chiado da sua infância. Nascido em 1888, precisamente o ano em que Eça publicou a sua obra-prima e que corresponde também ao período mais activo e vibrante dos "Vencidos da Vida", foi para a África do Sul com apenas 7 anos de idade, acompanhando a mãe e o padrasto que tinha sido destacado para a então colónia britânica para exercer um cargo diplomático, regressando apenas em idade adulta (1905) para prosseguir estudos superiores (que nunca concluiu). A glória de Pessoa, como a maioria dos nomes que mencionei (à excepção de Eça), foi póstuma, mas foi o grito mais alto de exaltação do passado português, transposto para o século XX, quando Portugal vivia as páginas mais negras da sua História, mergulhado na anarquia republicana. Trouxe ideias, que era aquilo que então, como hoje, mais necessitávamos. Avançou com a ideia do V Império, que seria um império de poetas, onde Portugal voltaria às suas glórias pretéridas e em que surgiria um novo Camões -que mal consegue disfarçar que seria ele próprio- para as transpor para a mais bela e alta forma de manifestação cultural - a poesia.  

Talvez não tenha sido por acaso que todos eles tenham estado fora da sua pátria. Quando estamos muito perto, não conseguimos ter uma noção de perspectiva. Mas quando estamos muito longe também não conhecemos a realidade em pormenor. Creio que foi essa a grande fonte da sua lucidez, associada ao seu reconhecido génio. Quando existe talento, lucidez, crítica e uma postura construtiva, nós, portugueses, somos capazes de tudo. Faltam-nos causas mobilizadoras, mas que inspiradores podiam ser estes exemplos! 

publicado por Rui Romão às 08:40
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

13 de Junho de 1985

 

No dia 13 de Junho de 1985, na sua casa ao Rossio, uma senhora já octogenária teve um dia diferente.  Foi um dia de emoções fortes, de memórias reavivadas das palavras ditas e não ditas, de olhares que se trocaram, nesse manto dócil e apaziguador que é o tempo. À distância, quando os momentos são marcantes, o tempo encarrega-se de tornar agradáveis mesmo os episódios mais desagradáveis.

Nesse dia, estreava no Teatro São Luiz, ali bem perto da sua casa, uma longa metragem de Luis Vidal Lopes, intitulada "Mensagem", relativa à vida de Fernando Pessoa e autor da obra homónima. 

Cumpriam-se os 50 anos da morte de Fernando Pessoa, e o país preparava-se para render homenagem ao seu maior poeta. Nada o faria prever quando no dia 30 de Novembro de 1935, um quase anónimo, pouco conhecido mesmo ao nível das elites, se exceptuarmos um círculo de letrados,  terminava os seus dias no Hospital de S. Luis dos Franceses no Bairro Alto. 

Ao lado de Camões, Vasco da Gama e D. Manuel I, preparava-se para entrar nesse grupo restrito de herois nacionais cuja eternidade  repousa nos mosteiro dos Jerónimos. Provavelmente nem o próprio pensaria que isso alguma vez sucedesse, não obstante a consciência clara do valor da sua obra e do impacto que teria no futuro. Não deixa de ser curioso que Pessoa previu o nascimento de um novo D. Sebastião em 1888 - ano do seu nascimento - como líder do V Império, que seria um império de poetas e onde alguém com a mestria de um Camões viria exaltar os feitos dos portugueses. Só desta forma se explica o ritmo frenético com que escrevia para a célebre arca, que nos legou para a posterioridade o seu incomparável talento. 

A sua última publicação original teve lugar em 1978: as cartas de amor que escreveu para Ofélia Queiroz, a sua única namorada. São variadíssimas e o seu interesse não reside na presuntiva devassa da sua vida privada. São autênticas peças de literatura e representam o mundo de Pessoa e do seu heterónimo Álvaro de Campos.

No dia 13 de Junho de 1985, ninguém sentiu tão profundamente essa homenagem como aquela senhora de 88 anos que vivia num apartamento ao Rossio. Essa senhora era Ofélia Queiroz, e certamente terá relido essas missivas que lhe escreveu aquele que, segundo uma confissão a um familiar, foi a maior paixão da sua vida.

 

Quis o destino que vivesse muitos anos, podendo acompanhar o " 2º nascimento" de Pessoa, cujo culminar foi a transladação para os Jerónimos. Atingir a glória máxima que um português pode aspirar e ainda por cima presenciado pelo seu grande amor. Sem dúvida que 13 de Junho de 1985 foi o melhor dia da vida de Fernando Pessoa, ou não fosse ele, tal como a sua obra, eterno.

publicado por Rui Romão às 20:58
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Sexta-feira, 23 de Março de 2007

A Coca Cola e o século XX Português

 

 

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se", este foi o slogan publicitário criado por Fernando Pessoa, em 1928, para o lançamento da Coca Cola em Portugal. Em plena ditadura militar, onde já pontificava a austeridade do ministro das finanças, Oliveira Salazar (que Pessoa abominava), o projecto foi recusado, com a justificação que criava "habituação".

O argumento não é completamente despropositado. A Coca Cola surgiu como resposta ao sucesso de um vinho de origem italiana, Vinho Marianni, produzido à base de cocaína. Vem-me à memória a frase de Frédéric Bartholdi, criador da Estátua da Liberdade, que referiu que se o vinho Marianni tivesse sido inventado mais cedo teria projectado uma estátua muito maior. Até 1929, a cocaina resistiu na composição quimica da Coca Cola, razão pela qual a resposta das autoridades portuguesas até pode ser considerada progressista.

Já em pleno Estado Novo, a empresa voltou à carga. O concessionário para a Península Ibérica, um russo de ascendência americana mas radicado em França, tentou por todas as vias convencer o senhor de "S. Bento"  a autorizar a comercialização da popular bebida americana. A última das quais, oferecendo uma "comissão" ao presidente do Conselho. Parece que Salazar, cordialmente, disponibilizou os préstimos dos seus seguranças para o acompanharem imediatamente ao aeroporto...

A terceira démarche foi, imagine-se, através do financiamento de uma campanha eleitoral. A frase "obviamente demito-o", proferida por Humberto Delgado na campanha presidencial de 1958, não foi apenas um sinal de luta contra a ditadura, pois resultou de uma "exigência" da Coca Cola (com o envolvimento da CIA ), como justificativo para tão generosa oferta. Álvaro Cunhal, que detestava Delgado, chamou-lhe o General Coca Cola...

Esta tentativa foi tão frustrada com as restantes, não deixando de ser elucidativa da força que as grandes multinacionais detêm e as vias que utilizam para que prevaleçam os seus interesses.

A Coca Cola entraria legalmente em Portugal (nas colónias consumia-se através de contrabando com países vizinhos) em 1977, 49 anos após a primeira tentativa, sem que a sua entrada não tenha sido vista com desconfiança pelas hostes comunistas, agitando a conhecida bandeira da luta contra o imperialismo americano. Esta foi a única batalha ganha pela Coca Cola, numa altura em que o país se começava a recompor do agitado processo revolucionário, e em que era evidente a atitude de maior abertura ao exterior. 

publicado por Rui Romão às 13:02
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