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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

O Malogrado Regicídio

No dia 19 de Dezembro de 2011, num post dedicado aos Duques de Aveiro, comecei o texto com uma legenda que ainda hoje se pode ler no monumento que fica num beco esconso, mesmo ao lado da célebre confeitaria de Belém:

"Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras, condemnado por sentença proferida na suprema juncta de inconfidência em 12 de Janeiro de 1759. Justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cometido contra a real e sagrada pessoa de D. José I. Neste terreno infâme se não poderá edificar em tempo algum".

A coluna fica no beco do chão salgado, conforme se pode ler na placa com o topónimo, no exacto local onde se situava o palácio de José de Mascarenhas, Duque de Aveiro, cujas casas foram arrasadas por este ter sido sentenciado como um dos conspiradores na tentativa de regicídio de Dom José. Salgado, porque, como é do conhecimento geral, o sal impede as culturas de crescer nos campos de cultivo, pelo que se usou esta metáfora para, como refere a última linha da legenda, “Neste terreno infâme se não poderá edificar em tempo algum”. O facto de este monumento estar hoje engolido por casas num beco apertado, dá-nos conta de como a vontade dos homens, por muito poderosos que sejam, não resiste à nossa curta existência terrena. Em 1758, Lisboa ainda era um monte de escombros. Mal refeita do terramoto que a abalou 3 anos atrás, a cidade tinha-se mudado para ocidente, onde se chegou a equacionar a hipótese de ai fixar definitivamente o seu centro nevrálgico. Por estes anos, a administração do Reino transferiu-se para a zona de Belém /Ajuda. O Rei vivia no Barracão da Ajuda e, como é compreensível, rapidamente se juntaram na imediações os seus apaniguados. Não foi só em Belém que isso se verificou. Se olharemos com atenção em redor da Baia de Cascais, podemos ver ainda hoje os palácios do Duque de Palmela (de inspiração inglesa) e o do Duque de Loulé (de inspiração francesa) que os mandaram construíram no final do século XIX porque Cascais era o local de eleição do Rei Dom Luis – que curiosamente não tinha Paço na então vila de pescadores, ficando hospedado na casa do governador, conhecida por “Cidadela de Cascais”. Regressemos a Belém e ao dia do atentado. No dia 3 de Setembro o Rei regressava a altas horas da visita à sua amante, a marquesa “nova” de Távora, e é interceptado a caminho do Real Barracão - mandado erigir em madeira porque D. José, assustado com o terramoto, não quis nunca mais habitar um paço de alvenaria – sendo o coche real alvejado, ferindo o Rei num braço. No local do atentado foi erigida, por ordem de Dona Maria I, filha de D. José, uma Igreja a que chama da Memória (por alusão à memória do atentado), onde, curiosamente, hoje repousam os restos mortais do Marquês de Pombal. 

O cocheiro conseguiu levar a carruagem real a caminho do cirurgião-mor e a rapidez com que o fez terá sido decisiva para salvar a vida ao monarca. Este episódio foi nos primeiros dias pouco comentado, com um sigilo pouco habitual em assuntos desta monta. Dizia-se muita coisa – inclusivamente que o Rei tinha morrido – mas nada transpirava do paço. O próprio Marquês de Pombal teve uma atitude muito passiva, mesmo quando já circulava o boato de que tinham sido os “Távoras” a atirar contra o Rei. Ressalve-se que o atentado teve lugar no dia 3 de Setembro e as prisões só começaram a meio de Dezembro (o edital tem data de 9 de Dezembro), ou seja mais de 3 meses depois da tentativa de regicídio. O que justifica este hiato? Diz-se que foi a própria amante do Rei a delatora do Duque de Aveiro e que a partir daqui outros implicados foram arrolados. Não tenho a certeza de que as coisas se tenham passado desta forma, mas este compasso de espera deve ter servido para Sebastião José arquitectar um plano para tirar o melhor partido possível do atentado, conducente ao fortalecimento do poder real, ou seja do seu próprio poder, quando já era o valido incontestado do Rei. As prisões começaram no dia 13 de Dezembro. Os Távoras foram encarcerados no pátio dos bichos do Paço de Belém, onde ainda hoje podemos observar os seus cárceres, no átrio da entrada da Calçada da Ajuda, actual da sede da presidência da República. As mulheres (Duquesa ade Aveiro e Marquesa de Távora e suas filhas) foram mantidas sob custódia em conventos. O Duque de Aveiro foi detido na sua quinta de Azeitão. As casas dos jesuítas foram cercadas pela tropa. O processo a que se faz menção no pelourinho do chão salgado foi extraordinariamente célere, culminando com a execução de 12 de Janeiro de 1759. A peça jurídica propriamente dita, classificam os especialistas, foi uma monstruosidade, mesmo para os parâmetros da época. Entre outras “pérolas” destaca-se o facto de até as testemunhas terem sido postas a tormento, para além da ausência de provas do crime. O único a confessar foi o Duque de Aveiro, interrogado na véspera de Natal (!), implicando os Távoras, provavelmente quebrado perante a tortura impiedosa a que todos os acusados foram submetidos. Com este processo Pombal desfere um golpe mortal nos seus inimigos figadais, que conspiravam na sombra para o derrubar. Dizia-se que este grupo era apoiado pelo próprio irmão do Rei, o futuro D. Pedro III, e que por esse motivo Pombal sempre desconfiou dele. No entanto, esta antipatia pelo infante não o impediu de “aprovar” o casamento com a herdeira do trono. Provavelmente concordou com o matrimónio acossado pela perspectiva de um casamento com um príncipe estrangeiro – e como tal menos “maleável” - ou então porque se apercebeu rapidamente que o irmão do Rei não andaria muito longe de ser um completo pateta. Depois destes fidalgos, faltavam os jesuítas. A antipatia com a ordem era assunto que extravasava a sua actuação em Portugal. No Brasil os jesuítas eram praticamente soberanos. A sua acção não se restringia às missões espirituais, tomando partido nos negócios que se faziam entre a colónia americana e a metrópole e na própria governação daquele gigantesco território. Pombal criou a companhia do Grão Pará precisamente para mitigar esse poder e para que a coroa reassumisse o controlo (e os proventos) desse comércio, criando a óbvia antipatia junto da Ordem. Por outro lado, eram os jesuítas que controlavam o ensino em Portugal, eram os confessores do Rei e da Rainha, e como tal faziam sombra ao poder do ministro. A acção de Pombal foi tão enérgica que não só conseguiu extinguir a ordem em Portugal, como mover influências junto da corte Espanhola e Francesa até conseguir a extinção da formal da ordem na Europa pelo Papa Clemente XIV. Ainda hoje não se sabe quem foram os verdadeiros responsáveis pela tentativa de regicídio, nem provavelmente algum dia se saberá. O mesmo sucede com o regicídio – este consumado – do Terreiro do Paço. Geralmente nunca ficam cabalmente provadas nem as circunstâncias, nem as responsabilidades pessoais pelos crimes políticos, ao contrário do que sucede na generalidade dos outros crimes. Porquê? Não vejo outra justificação que não seja a ligação a altas esferas da administração, que assim conseguem direccionar a investigação para longe dos verdadeiros culpados. Foi o que sucedeu no desacato de 1758? Teriam sido mesmo os Távoras e o Duque de Aveiro os responsáveis? A pergunta vai continuar sem resposta.

publicado por Rui Romão às 11:31
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

"Mal Por Mal, Antes Pombal"

 Hoje, dia 7 de Junho, é feriado municipal em Oeiras. Sou bem conhecedor desta data porque vivi 20 anos neste concelho e recordo-me de celebrarmos o feriado municipal uma semana antes de Lisboa, alusivo a Santo António. Em Oeiras, e ao contrário do que sucede na esmagadora maioria dos concelhos, o dia do município não nos remete para os altares. O feriado alude ao dia em que o sr. Sebastião José Carvalho e Melo, Ministro D'el Rei D. José I, e prestigiadíssimo pela sua determinação na reconstrução de Lisboa que estava então em marcha, foi elevado à dignidade de Conde de Oeiras, corria o ano de 1759. Nesse mesmo ano o Rei concede foral à Vila, no que foi um dos últimos forais concedidos em Portugal e que não deixa de ser caricato. Os forais foram o sustentánculo do sistema feudal. Estabelecia uma espécie de lei orgânica que regia os destinos da terra, prevendo os tributos, garantias e isenções ao senhorio e outras disposições como o direito de aposentadoria e a prestação do serviço militar. A maioria dos forais portugueses foram concedidos nos primeiros reinados, pelo que quando chegamos ao século XVI já se encontravam muito desfazados da realidade. D. Manuel procedeu então à sua reforma, tendo concedido novos forais a substituir os antigos e revendo algumas disposições que já não se justificavam à data. Passar um foral no século XVIII, como D. José fez em relação a Oeiras, apenas pode ser justificado pela vontade em prestigiar a terra, embora não tenha tido efeitos práticos, para além da doação dos terrenos onde o futuro Marquês de Pombal construiria o seu palácio. Neste palácio o Estadista acolheu o próprio Rei, em escala para o Estoril, onde ia procurar alívio para os seus problemas de saúde. 

O Paço de Oeiras ainda hoje impressiona pela opulência que exibe. Hoje sentimo-nos chocados pela riqueza que um governante, que vivia exclusivamente do erário público, conseguia acumular, mas naquele tempo era normal. Os próprios lugares onde se podia enriquecer, nomeadamente nas alfândegas, eram disputadíssimos. A consciência para o serviço público como atitude abnegada apenas surge com o liberalismo. Quem parece que não se apercebeu que os tempos tinham mudado foi o Costa Cabral, tendo sido atacado por receber oferendas em troca de favores políticos (o caso mais conhecido foi o de uma caleche).

O Conde de Oeiras foi nobilitado com o título de Marquês de Pombal dez anos depois, embora ele não tivesse nenhuma relação com a Vila. Nascido em Lisboa, subira na vida graças à acção de um tio que era cónego na Sé. Foi chamado a exercer cargos diplomáticos na corte austríaca e inglesa, em ambos os casos com reconhecida competência. Destas experiências formaria a sua visão do Estado Ideal, bebendo a doutrina política na primeira e a económica na segunda, chegando a portugal no final do reinado de D. João V já com ideias bem definidas e deparando-se com um país à driva. O Rei estava velho e doente já não tinha a clarividência de outrora. Sebastião José veio casado com uma senhora austríaca e como na corte do "Magnânimo" se falava o idioma alemão, em virtude da Rainha ser também austríaca (D. Mariana da Austria). D. João V não durou muito mais, sendo em 1750 aclamado D. José, que o nomeou para o cargo de Ministro dos Estrangeiros e da Guerra. Até ao terramoto foi um ministro como os outros, mas nesse fatídico dia, enquanto que todos quanto puderam fugiram, ele ficou. Como era Ministro da Guerra pode destacar os batalhões para manter a ordem e evitar a pilhagem,  começando logo nesse dia a gizar os planos para uma nova Lisboa, concebida de acordo com o despotismo iluminado que perfilhara com convicção.

Este ascendente real não se ficou pela arquitectura. Nenhuma classe, das tradicionais que ele aprendera na escola, escaparam ao seu controlo. Expulsou os jesuítas (clero), acabou com a familia nobre mais poderosa - os Távoras- e enforcou umas dezenas de populares no Porto, na sequência de um motim contra o fecho das tabernas.

Ao longo destes 22 anos, de 1755 a 1777, foi um autêntico Rei absoluto. Esta postura grangeou-lhe muitos inimigos, que esperavam pela oportunidade de vingança. Com a queda de D. José e a política da "Viradeira" de D. Maria, Pombal viu destilar contra si todos os ódios que tinha semeado. Foi obrigado a afastar-se da corte, fixando-lhe o exílio em Pombal, o que para ele foi uma morte anunciada. Ele esperava acabar os seus dias naquele opulento palácio de Oeiras, e por esse motivo não construiu nenhum em Pombal. De resto, o título de Marquês de Pombal só lhe foi concedido por ser o lugar onde o tal tio cónego tinha umas propriedades. E por esse motivo as únicas coisa que mandou construir em Pombal foi um celeiro para guardar os cereais (que as gentes da terra lhe tinham que pagar como imposto) e uma enorme prisão.

Acabou os seus dias de uma forma amarga, mas ficou no imaginário popular, principalmente depois da implantação da República, culminando com a construção daquele gigantesco monumento no cimo da Avenida da Liberdade! Com todos os defeitos e virtudes, não passou muito tempo após a sua morte, para ouvir o povo dizer em surdina" mal por mal, antes Pombal".

      

publicado por Rui Romão às 00:03
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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

No Beco do Chão Salgado - O Triste Fim da Descendência de D. João II

Aqui foram arrasadas e salgadas as casas de José Mascarenhas, exautorado das honras de Duque de Aveiro e outras, condemnado por sentença proferida na suprema juncta de inconfidência em 12 de Janeiro de 1759. Justiçado como um dos chefes do bárbaro e execrando desacato que na noite de 3 de Setembro de 1758 se havia cometido contra a real e sagrada pessoa de D. José I. Neste terreno infâme se não poderá edificar em tempo algum.

  

Este texto está inscrito na face sul da coluna do Beco do Chão Salgado. O facto de se encontrar num beco esconso, rodeado por casas onde, entre outras, se situa a famosa Confeitaria de Belém é a prova de que o propósito do monumento não foi cumprido. A legenda desta coluna dispensa grandes explicações. No local encontrava-se um dos palácios do Duque de Aveiro, que foi demolido na sequência do processo de tentativa de regicídio em que o titular e proprietário foi um dos sentenciados. A execução até nem ficou longe dali, num patíbulo construído para o efeito. Este foi o culminar do que ficou conhecido como o processo dos Távoras, onde foram implicados e sentenciados os Marqueses de Távora e seus filhos e o Duque de Aveiro, com uma violência que impressionou os coevos, pela brutalidade com que foi aplicada a sentença. 

O início da história conta-se em poucas linhas. No dia 3 de Setembro de 1758 o Rei Dom José regressava à real barraca da Ajuda (depois do terramoto nunca mais o Rei quis viver em paços de alvenaria), e foi atingido a tiro na Calçada  do Galvão, sendo o local assinalado pela Igreja da Memória, mandada contruir pouco tempo depois. O Rei sobreviveu ao atentado e Sebastião José (que hoje repousa na dita Igreja da Memória) não perdeu o ensejo para conduzir um processo que, dizem os juristas, é bastante frágil.

Não me alongarei sobre o processo em si até porque não sou jurista (embora também não seja historiador e escreva sobre História) mas não é dificl imaginar que este processo tenha tido uma motivação fortemente política. O futuro Marquês de Pombal tinha uma concepção política que bebera na Austria onde desempenhou uma missão diplomática ainda no reinado de D. João V e que pode ser simplificada na expressão feliz de Despotismo Iluminado. Ou seja, entrava-se na Idade Moderna, privilegiava-se o saber e a divulgação do conhecimento livre de preconceitos religiosos, mas baseado no controlo do processo pela real figura. Por este motivo Pombal perseguiu (e expulsou) os jesuítas, que eram os grandes mestres do ensino em Portugal, e a alta nobreza  - grandes opositores desta política de fortalecimento do poder real nas mãos do homem de confiança de D. José. Pombal também aprendeu que a terceira classe era o Povo e nesta ânsia de tudo controlar puniu severamente um desacato provocado nas tabernas portuenses, provocado pela proibição da venda de vinho a copo. 

Regressando ao monumento de Belém, a primeira ideia que me vem à memória é aquele velho ditado "pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita". Para ser uma fiel representação do que foi a História da Casa de Aveiro, a coluna devia ter uma certa inclinação para cumprir com este adágio. Foi uma casa que começou mal e acabou ainda pior.

A origem do Ducado vem da descendência bastarda do Príncipe Perfeito, D. João II. Ele tinha apenas um filho legítimo, D. Afonso, que morreu numa queda de cavalo em  Santarém. Com a morte do seu único herdeiro, D. João II tentou que lhe sucedesse um outo filho, mas este bastardo, que era D. Jorge, que viria a ser mestre da Ordem de Santiago. Não conseguiu tal intento, ao qual se opôs a rainha e irmã do seu sucessor - o Venturoso D. Manuel. Este facto foi suficiente para ostracizar o infante da corte no reinado mais glorioso da História portuguesa.

O primeiro Duque de Aveiro foi um filho de D. Jorge e  teve ainda um destino mais cruel. A sua desventura foi contada por Camilo Castelo Branco no seu romance "O Marquês de Torres Novas" (título de que também era titular). O drama do primeiro duque resultou do facto de o Infante D. Fernando (filho de D. Manuel) pretender casar com Dª Guiomar Coutinho, herdeira da casa de Loulé e Marialva e, pela grande fortuna, muito cobiçada. Sucedeu que o então Marquês de Torres Novas afirmou que já se tinha casado com a senhora e como tal ela não podia desposar o infante. Essa sua pretetensão levou-o até ao cárcere do Castelo de São Jorge, onde ficou quase uma década. O título de Duque de Aveiro foi-lhe concedido depois deste episódio, por D. João III, quem sabe se para desagravar os tormentos que lhe infligiram.

O 2º Duque, D. Jorge, morreu na batalha de Alcácer Quibir, ao lado de D. Sebastião. Menos glorioso foi o legado do 4º Duque, Dom Raimundo, que foi condenado em estátua por traição à pátria, por passar-se para o lado espanhol na Guerra da Restauração, depois da regente Dª Luisa de Gusmão lhe confiado altas responsabilidades na Guerra da Restauração.     

Por fim, o 8º e último duque morreu no patíbulo de Belém, depois de lhe terem sido quebrados os ossos de braços e pernas, numa cena de violência que apenas tem comparação com a célebre execução dos carrascos de Inês de Castro por parte de D. Pedro.

Hoje resta o monumento a assinalar este pedaço de História.  

publicado por Rui Romão às 08:23
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

A Ascensão e Queda do 3º Conde de Castelo Melhor

 

O Conde de Castelo Melhor faz parte deste grupo exclusivo de homens de confiança dos monarcas pós-restauração. Os tempos já não se compadeciam com a acumulação nas mãos do rei de todos os poderes do Estado, pelo que a governação foi sendo entregue a pessoas da sua confiança. Podemos falar do  Conde de Castelo Melhor (D. Afonso VI), do Conde da Ericeira (D. Pedro II) ou de Pombal (D. José I), não esquecendo os homens que instalaram o regime liberal em Portugal e que estiveram sempre muito próximos da coroa, como é o caso do Duque de Palmela, o Duque de Terceira ou o Duque de Saldanha (este último teve o seu canto do cisne na Saldanhada de 1870). Outros houve no período liberal que reservaram sempre uma distância "higiénica" para com o poder moderador, principalmente porque pertenciam à ala mais radical que esteve na base da constituição de 1822 (os chamados vintistas) como era o caso de Rodrigo da Fonseca, Silva Carvalho ou Manuel Fernandes Tomás.

No entanto, ao contrário dos nomes que citei, o 3º Conde de Castelo Melhor teve uma ascensão política que não dá azo a grandes elogios nem a sua obra se pode comparar aos homens que se seguiram, nomeadamente à do Conde da Ericeira e, evidentemente, à de Pombal porque estes tinham um plano para o país. Ericeira é considerado o "Colbert" Português por defender que a chave para o progresso era investir na produção interna para atenuar a nossa dependência face ao exterior. Pombal tinha um plano ainda mais lato, que não se restringia apenas ao campo económico, naquilo que ele entendia que deveria ser a construção de uma nova sociedade portuguesa.

Castelo Melhor  foi um homem astuto soube ver uma oportunidade para assumir os destinos do pais junto do diminuido D. Afonso VI. Este monarca era um deficiente profundo, cuja doença nunca foi muito tida em conta porque o sucessor era o seu irmão mais velho D. Teodósio. No entanto o príncipe faleceu precocemente e quando morre D. João IV em 1656 é D. Afonso o legítimo herdeiro. D. Luisa de Gusmão assume a regência, seja porque o herdeiro contava apenas 13 anos e também porque era manifesta a sua incapacidade para assumir a coroa.

D. Afonso VI era muito diminuido e facilmente seduzível por gente de condição mais baixa que se colocava nas imediações do palácio para captar a sua atenção. Eram bandos de marginais que procuravam tirar benefícios da situação do rei. O mais conhecido desses marginais foi um tal de António Conti, genovês que o Rei chegou a instalar no próprio paço e lhe concedeu muitas mercês, gerando um grande escândalo. D. Luisa de Gusmão não podia tolerar uma situação dessas e deu ordens para o governo punir os prevaricadores que acompanhavam o filho nas saídas nocturnas, onde provocavam grandes desacatos. O Rei não gostou que a António Conti tenha sido aplicada a pena de degredo para o Brasil e instigado pelo 3º Conde de Castelo Melhor afasta a mãe da regência e assume os destinos do reino, num despotismo iluminado avant la lettre pela mão do Conde. No entanto a actuação de Castelo Melhor acabou por ser bastante positiva, tendo sido sob o seu governo que conseguimos importantes vitórias militares que nos garantiram a independência que conservamos ainda hoje, embora não se possa dizer que tivesse uma ideia para o futuro de Portugal. Contudo, é preciso perceber que todas as energias do país eram canalizadas para a guerra e nestas circunstâncias esta prioridade sobrepunha-se a todas as outras, com a curiosidade de ele ter sido apeado do governo em 1667, ou seja apenas um ano antes da Paz com Espanha que foi, em grande medida, obra sua. Foi responsável pelo casamento de D. Afonso VI com Maria Francisca de Saboia, sendo a sua preocupação a aliança francesa, mas foi precisamente este facto que motivou a sua queda. Provavelmente ninguém deu conhecimento à raínha do atraso mental do Rei  e esta sentindo-se defraudada na ambição de ser raínha, interviu activamente na conjura que viria a afastá-lo do poder. Não existem provas de adultério entre Maria Francisca de Saboia e o futuro D. Pedro II, mas certamente que comungavam do interesse comum: afastar Castelo Melhor, que era, de facto, quem reinava em Portugal.  As relações entre a Rainha e Castelo Melhor foram sempre tensas e foi numa resposta mais desagradável de um próximo do Conde - António de Sousa Macedo - que se despoletou uma crise que viria a dar origem à queda de Castelo Melhor. A Rainha terá exigido o afastamento do Conde mas o Rei resistiu até ao limite, sendo contudo impossível manter o Conde no cargo. Mais tarde voltou a chamar para o governo António Sousa Macedo (o seu antigo secretário de Estado) e perante este facto  o futuro D. Pedro II, para zelar os interesses da Rainha, cercou o paço e exigiu a sua exoneração. Até à queda do próprio Afonso VI foi um passo, com o célebre episódio da entrada da Rainha no Convento da Esperança e a exposição epistolar do pedido de anulação do casamento por o mesmo não ter sido consumado.

Com a regência de D. Pedro II (que apenas assumiu a coroa após a morte do irmão que ocorreu em 1683) firmámos a paz com Espanha e a partir desta altura entra em cena o Conde da Ericeira, de certa forma sucessor de Castelo Melhor. Se este último foi o homem que garantiu a independência, o Conde da Ericeira era o homem certo para garantir o progresso. Era o homem certo mas no reino errado, e a sua governação resume-se numa enorme frustração que o conduziram à morte. O Conde morreu sem réstia de esperança de tornar este país algum dia próspero. Tivesse vivido mais um par de anos e saberia que se tinha equivocado, porque começavam a aparecer no Brasil umas pepitas de ouro que haveriam de marcar o opulento reinado de D. João V. Infelizmente não aproveitámos este ouro para desenvolver verdadeiramente o país, tal como não o conseguimos fazer recentemente com os fundos comunitários. Parece ser o nosso fado.      

publicado por Rui Romão às 13:31
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

O Conde de Oeiras

Há uns dias foi notícia a detenção do presidente de Câmara de Oeiras quando se preparava para inaugurar um monumento evocativo do Marquês

de Pombal, por ocasião dos 250 anos do concelho. Foi com 2 anos de atraso (1759-2009) mas a homenagem é justa, e este episódio não deixa de o ser também, ou não fosse o homenageado o homem que mais prendeu neste pais ao longo da sua história. Curiosamente o feriado de Oeiras é a 7 de Junho, dia em o Rei D. José I atribuiu Sebastião José Carvalho e Melo o título de Conde de Oeiras, concedendo foral à nova vila. Esta atribuição de foral é um tanto ou quanto quixotesca (chamam-lhe forais novos) porque no século XVIII as leis que regiam o território já não se traduziam em forais. Assim, e ao contrário do que se verifica em quase todos os municípios, em Oeiras o dia do concelho não alude a nenhum santo, longe disso!

Mas como é que a vida daquele que ficou conhecido na história de Portugal como Marquês de Pombal se cruza com Oeiras. Já li algures que o título lhe foi outorgado pelo seu trabalho na reconstrução de Lisboa, o que me parece um absurdo. Em 1759 tinham-se passado pouco mais de 3 anos após o terramoto pelo que ainda não havia nada reconstruído. A verdade parece-me que é outra. Nesse mesmo ano, no dia 13 de Janeiro, tinham sido executados os Távoras e o Duque de Aveiro no Patíbulo de Belém na sequência da tentativa de regicídio do Rei D. José no local onde hoje está a Igreja da Memória. Curiosamente é nesse local que hoje repousa o próprio Marquês de Pombal. Assim, o Rei ter-lhe-á atribuído o título como agradecimento pelo seu papel no processo Judicial que levou à condenação dos Távoras (dizem os juristas que o processo tem mais buracos do que um queijo suiço) e este não se fez rogado da mercê recebida e encarregou-se de construir um magnífico palácio, onde o próprio Rei, já velho e cansado, terá passado uma temporada e onde Sebastião José pensava acabar os seus dias.´

Não teve ensejo de desfrutar plenamente da sua obra porque com a morte do Rei e a subida ao trono de D. Maria I, os seus inimigos (que eram inúmeros) aproveitaram para se vingar dos vexames que tiveram que suportar durante a sua governação. Foi a política da "viradeira", com novas personagens e um novo estilo de governação. Este processo começou com o desterramento de Sebatião José para Pombal, onde detinha  o título de  Marquês desde 1769 mas que nunca pensou habitar. Aliás, Pombal está mais associada ao Conde de Castelo Melhor (outro grande estadista) do que a Sebastião José. Em Pombal Sebastião José tivera um tio cónego que lhe dera um forte impulso para que o seu sobrinho chegasse à corte (ainda no tempo de D. João V) e talvez por isso D. José resolveu atribuir-lhe o título de Marquês nessa Vila e não em Oeiras. O Marquês de Pobal terá pedido a D. Maria o título de Duque e esta ter-lhe-á respondido que os duques não se faziam, nasciam-se...Neste triste exílio fechou os olhos em 1782, num país mergulhado no caos e a saque por aqueles que tanto contestaram a sua mão firme. Era por isso que nesses dias se dizia em Portugal "mal por mal, antes Pombal".         

publicado por Rui Romão às 08:36
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Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Vinho do Porto - A Diáspora

No último post falei sobre as origens do vinho do Porto, com especial enfoque no nome. Na continuação do tema, tentarei lançar umas pistas sobre a origem da sua fama e reconhecimento internacional, que o tornaram um autêntico embaixador de Portugal no mundo.

Para começar, o que será que torna o Vinho do Porto especial? Não existe um consenso científico, no entanto acredito que o seu sucesso é explicado por um conjunto de razões naturais, históricas e políticas.

 

 

Quando evoco as razões naturais, obviamente que me refiro às vinhas que por esse Douro fora formam essa paisagem deslumbrante. Reconhecida pela Unesco como património da humanidade,  o Alto Douro Vinhateiro é fruto não só das condições naturais, mas também do suor de quem diariamente enfrenta as agruras de uma faina nesses penhascos recortados por sucalcos de xisto. É precisamente essa configuração que lhe confere o seu carácter único, como singulares são também as uvas que saem dessas videiras. São vinhas que nunca sofrem grandes oscilações térmicas, porque o xisto funciona como uma espécie de pilha térmica que acumula calor durante o dia e que o liberta durante a noite. Arrisco-me a considerar o xisto a grande alma do Vinho do Porto.

Ao Marquês de Pombal deve o Porto e o país o reconhecimento por esse patrimonio único, que o defendeu de uma forma até então inovadora, ao demarcar os seus limites para poder preservar a qualidade da insígnia do seu vinho. Foi em 1756, e ficou para a história como a primeira região vinícola demarcada do mundo.

Dos sucalcos do Douro até ao cais de Gaia (e não do Porto como expliquei no post anterior), o vinho era transportado em barcos rabelos (chamavam-se rabelos por serem dirigidos pela ré), onde, a partir do século XVIII, uma grande parte partia nos navios para o Reino Unido.

É com a exportação para as ilhas britânicas que o Vinho do Porto ganha fama internacional. Para os britânicos, em constantes conflitos com a França, era importante encontrar uma alternativa aos vinhos franceses, o maior produtor de vinhos europeu. A essa dependência (indesejável) somou-se uma necessidade de conseguir escoar os produtos manufacturados, para fazer face ao problema do excesso de produção. Foi neste contexto que se firmou o acordo anglo-luso, que ficou conhecido pelo nome do ministro britânico que o negociou (John Methuen) e cujo grande responsável pelo lado português foi o Marquês de Alegrete, ministro de D. João V. Esse acordo, assinado no início do reinado do "Magnânimo" (1703), concedia facilidades à entrada de vinhos portugueses nas ilhas britânicas em troca da reciprocidade de tratamento para as suas manufacturas britânicas, nomeadamente panos. Com este tratado, estava aberta a porta do comércio externo ao vinho do Porto.

 Ainda hoje os historiadores discutem quais foram as vantagens e desvantagens deste tratado. Não entro nessa discussão (até porque não sou historiador) no entanto parece-me indiscutível que sem este convénio o Vinho do Porto não teria a projecção que tem hoje. Se os britânicos beneficiaram da qualidade do nosso vinho, conseguiram diminuir a dependência para a sua arqui-inimiga França e ainda escoaram os seus lanifícios,  os portugueses beneficiaram do prestígio que foi conferido ao vinho e, sobretudo, da descoberta da fórmula que o tornou célebre. 

Para manterem o vinho em boas condições na longa viagem marítima, os britânicos adicionavam-lhe aguardente, e assim nasceu a fórmula do Vinho do Porto. Vinho licoroso, que se distingue do vinho de mesa  - que também tem ganho terreno na região do Douro - e que se deve a esse tráfego marítimo e à necessidade de o conservar. Assim, da necessidade de conservação, obtivemos o vinho do Porto, da mesma forma que pelo mesmo imperativo ganhámos o gosto pelo bacalhau seco e salgado.

E como a história do vinho do Porto está ligada ao mar, nada melhor do que rematar com esta curiosidade. Esta era a bebida preferida do Almirante Horatio Nelson, que ficou célebre pela vitória na batalha naval de Trafalgar sobre a marinha Napoleónica, que teve como paliativo para esses dias difícieis no mar, a companhia de uma pipa de vinho do Porto.

publicado por Rui Romão às 18:46
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Domingo, 6 de Setembro de 2009

O Humor na Política

 

 

O humor é uma das armas mais temidas pelos políticos. Os seus efeitos podem ser mais nefastos para a sua imagem do que uma coluna de opinião de um adversário, ou uma notícia menos favorável.

No entanto, o humor, quando usado com mestria, também constitui uma arma ao serviço dos políticos. A dificuldade é conseguir fazer humor sem cair na piada fácil, no discurso soez, na má criação.

O paladino da fina ironia política foi, sem sombra de dúvida, Winston Churchill. São várias as frase conhecidas, embora algumas lhe sejam atribuídas sem que se possa fazer prova.

Numa visita ao parlamento britânico, uma criança perguntou ao seu anfitrião se os seus inimigos se sentavam do outro lado (bancada da oposição). O primeiro-Ministro britânico respondeu-lhe que ele estava enganado. "Do outro lado sentam-se os meus adversários.  Os meus inimigos sentam-se deste lado..."

Lady Astor, crítica acérrima da sua governação, ter-lhe-á dito um dia que se fosse sua mulher lhe colocaria veneno no café. Churchill respondeu-lhe à letra, " se eu fosse seu marido, tomava esse café".

Mas não é preciso viajar para as ilhas britânicas para conhecer bom humor na política. Na nossa história são conhecidas as frases de D. João II, segundo o qual o seu pai (D. Afonso V), o terá feito "Rei das estradas de Portugal", tamanha foi a sua generosidade para a nobreza terratenente.

Num registo humoristico, o Príncipe perfeito fez uma analogia entre as classes sociais e os peixes (muito antes do padre António Vieira). Ele dizia que as gentes eram como os peixes. Por exemplo, o salmonete é muito saboroso mas existe em pouca quantidade e é caro.  Por seu lado a sarinha é farta, muito barata e também é saborosa. "Eu sou pela sardinha". A História comprovou-o.

O Marquês de Pombal também teve os seus momentos de humor. Aquando do terramoto, o cardeal de Lisboa justificou a tragédia com a degradação moral do povo. Sebastião José respondeu-lhe que, se assim fosse, porque motivo tinha a ira divina poupado os lupanares (a maioria situava-se em Alfama, que ficou praticamente incólume)?

Outra situação caricata prende-se com a independência do Brasil. O famoso grito o Ipiranga, imortalizado por Pedro Américo numa tela de 1888, resulta de uma situação no mínimo inusitada. Em primeiro lugar, em vez do belo cavalo lusitano, D. Pedro de Alcântara estava montado numa mula. A declaração de independência deu-se junto das margens de um rio (o Ipiranga) por uma necessidade fisiológica do príncipe, que sofria de um desarranjo nas entranhas...

Com o parlamentarismo, as corte tornaram-se o palco por eleição onde se destilavam críticas com humor, sendo conhecido o célebre discurso "Luis XVI" de Afonso Costa.

O mesmo que forneceu glosas para a imprensa,  quando o deputado saltou de um eléctrico em andamento (ficando bastante maltratado), após um anodino disparo de um disjuntor, pensando trata-se de uma bomba... Esse eléctrico ainda existe e foi baptizado como ... "Afonso Costa". Por absurdo que possa parecer foi este acontecimento que pôs fim à revista Orpheu, onde se destacava a figura de Fernando Pessoa. No seu estilo polémico, através do heterónimo Álvaro de campos, em resposta às críticas do 2º número da revista, escreveu que" a própria Providência Divina se serve dos carros eléctricos para os seus altos ensinamentos", numa clara alusão ao incidente de Afonso Costa. Mas o poeta foi ainda mais ousado numa nova missiva onde afirmou "lamentar apenas as circunstâncias, que infelizmente se parece confirmar, do seu restabelecimento". Almada e Ferro demarcaram-se deste ataque e surgiram tensões no grupo que, somando aos problemas financeiros, haveria de ditar o fim do projecto.    

Salazar, por menos crível que possa parecer, era um mestre da blague. Carranca Redondo, pioneiro da publicidade em cartazes à beira da estrada com o seu Licor Beirão, colocou um anúncio onde se podia ler "O Beirão de quem todos gostam". Salazar, que era beirão mas que também tinha humor, um dia deu recado a um seu ministro (amigo de Carranca Redondo) mandando-lhe cumprimentos e perguntando-lhe quem era o tal beirão de que ele falava na publicidade...

Outro episódio do quase eterno presidente do Conselho,  foi relatado por Adriano Moreira e refere-se a uma reunião com Salazar (como era habitual com todos os ministros) a propósito da revogação do Estatuto do Indígena. Quando Salazar lhe disse que estava revogado, Adriano Moreira retorquiu, alegando que esta matéria necessitava de ir a aprovação de Conselho de Ministros. Salazar respondeu-lhe placidamente  "Nós somos dois..."

Com o PREC surgiu talvez o maior político-humorista português: Pinheiro de Azevedo. Começando pela greve do Governo (facto ímpar até hoje na história universal), até ao vigoroso "bardamerda para o fascista" em resposta aos trabalhadores da construção civil que colocaram cerco ao Parlamento. "Fui sequestrado, já duas vezes, é algo que não gosto, que me aborrece". No entanto a tirada mais conhecida foi o célebre "o povo é sereno"  e o "é só fumaça" no comício no Terreiro do Paço como resposta à contra-ofensiva gonçalvista.

Com Sá Carneiro é sobejamente conhecido o seu duelo com Ramalho Eanes. "Duelo não, batalha, porque duelos eu tenho-os com políticos. Ramalho Eanes não é um político, é o chefe de um grupo politico-militar, logo não é um duelo, é uma batalha".

Desde então o cinzentismo tem dominado a nossa classe política, o que não é de estranhar, sabendo que é preciso alguma craveira intelectual para se fazer humor...   

publicado por Rui Romão às 16:29
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