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Domingo, 25 de Novembro de 2012

Napoleão - Um Génio ou Uma Fraude?

Raramente um só homem consegue ter tanta influência no seu tempo como teve Bonaparte. Estadista, general, líder de um país que pretendia dominar a Europa, é ainda hoje idolatrado por muitos, como é disso prova a romaria ao seu túmulo no cemitério dos “Invalides” em Paris.

Mas quem foi afinal este homem? Para começar ele não era propriamente francês. Nascido na Córsega, ilha meio francesa meio italiana que tinha sido ocupada em 1768 pela França um ano antes do seu nascimento (1769), nasceu no seio de uma família importante na “noblesse” local. Bem cedo se apercebeu que a sua ambição desmedida tinha terreno mais fértil na França revolucionária do que na pequena Córsega, o que o levou a abandonar as suas origens e ir para França.

Foi um militar com uma folha de serviço distinta na guerra Italiana, no contexto da guerra europeia contra as coligações de paises europeus que pretendiam estancar a hemorragia revolucionária francesa.

A sua fama rapidamente conquistou o Directório, embora a chegada ao poder tenha sido feita pela via de um golpe militar, o 18 de Brumário de 1799, que instaura em França o período a que se designa de Consulado, sendo Bonaparte o Iº Consul. Daí até à sua auto-coroação como Imperadore, perante o próprio Papa, num sinal impressionante de força e grandeza, foi um passo.

As vitórias militares que ascenderam a mais de 60, conseguindo moldar a Europa aos seus desígnios, numa espécie de monarquia de família, que constituia na deposição dos antigos monarcas e na coroação de membros da sua família. Assim fez, por exemplo, na Holanda, com o seu irmão Luis (pai do futuro Napoleão III) ou em Espanha com o seu irmão José. A sua dinâmica parecia imparável, sendo a Inglaterra o único empecilho para conseguir uma vitória total.

O palco desta luta anglo-francesa foi numa fase inicial travada no mar, onde a Inglaterra mostrou a sua superioridade em Trafalgar (1805). Depois de Napoleão se aperceber que pelo mar nunca venceria os ingleses, a luta passou sobretudo para terra, decretando o Bloqueio Continental, no qual fomos implicados pela histórica aliança luso-britânica

A Península Ibérica tornou-se a partir de 1807 o principal palco de luta entre as duas principais potências europeia de então, embora Napoleão nunca tenha combatido pessoalmente com o exército de Wellesley. Os mais prestigiados marechais franceses de então passaram pela península, como Soult, Massena ou Junot, ficando o embate entre Napoleão e o futuro Duque de Wellington reservado para Waterloo onde o (regressado) Imperador dos franceses foi batido em toda a linha.

 Se o papel de Napoleão na História é incontestável, a glória de que se alcandorou é mais discutível. Seria Napoleão um génio militar? Se tivesse que responder dicotomicamente a esta questão, diria claramente que não o era. A sua vida militar não revela nem grandes dotes estratégicos nem tácticos, mas mesmo assim é incontestável que conseguiu vencer a maioria das batalhas onde participou. Porquê?

A minha opinião, que é aquela defendida pela maioria dos especialistas militares, é que a enorme superioridade francesa em termos militares se deve acima de tudo a uma questão demográfica. A enorme superioridade em termos de efectivos da França face aos restantes paises europeus era considerável, numa altura em que a guerra de infantaria costumava decidir a sorte das armas.

A somar à superioridade em termos de número de militares soma-se o carisma de Napoleão e a sede de conquista de um povo que tinha operado uma revolução que mudara completamente a sociedade francesa e europeia. O carisma do líder, a vontade de combater e a superioridade númérica, formam o trinómico vencedor da França napoleónica.

Se analisarmos as campanhas miliateres de Bonaparte vemos as suas limitações como comandante operacional. Tendo a vantagem de não ter que responder perante instituições representativas como era o caso de Wellignton – que tinha que responder perante a Câmara dos Comuns – manifestou um grande desprezo pela vida dos seus militares. Nunca se preocupou com questões como o abastecimento (de homens e animais), linhas de comunicação ou de planos de contingência. Essas lacunas foram evidentes na campanha da Rússia. Apenas se preocupou em chegar rapidamente a Moscovo, nas campanhas rápidas que o caracterizavam, a “mata-cavalos”, sem se preocupar com o dia seguinte. O resultado foi uma ctástrofe. Kutuzov, general russo, abandonou Moscovo, deixando a cidade deserta e sem qualquer abastecimento, numa política rigorosa de “terra queimada” e os franceses tiveram que regressar a casa, por não disporem de meios de subsistência.

Esta batalha ditou a queda de Napoleão e o exílio na Ilha de Elba, mas depressa o Imperador dos Franceses conseguiu fugir e regressou à Europa para uma última batalha – Waterloo.

Mas uma vez, Napoleão não se preparou para este embate contra o meticuloso Wellington, que o venceu claramente com o auxílio dos Prussianos. Napoleão seguiu a estratégia do costume. A formação de um enorme corpo de infantaria, que se desdobrava em leque numa frente considerável, avançando em seguida para a vanguarda do inimigo. É uma táctica básica perante um exército comandado pelo astuto Wellington.

O general Inglês costumava esconder largas dezenas de milhares de efectivos em encostas (a táctica da encosta invertida), atacando no momento decisivo, sendo rigoroso na definição de planos de fuga em caso de derrota e no abastecimento de homens e animais.

Diz-se que na véspera da batalha de Waterloo Napoleão estava mais azafamado na escolha da farda com que entraria triunfalmente em Bruxelas do que na batalha propriamente dita. O resultado foi que teve que levar os galões para Santa Helena, contando com a benevolência dos ingleses que o podiam ter prendido em Inglaterra ou enviado directamente para a Prússia, onde seria certamente fusilado.

Não consigo encontrar uma melhor definição para o suposto génio militar de Bonaparte do que aquela que foi feita por um general Inglês – Napoleão não passa de uma martelo-pilão.

É essa a minha opinião. Carismático, denodado, ambicioso e possuindo um povo numeroso que o seguia religiosamente. Com todas estas condições, fosse Napoleão um grande General e hoje, provavelmente, todos os europeus falariam francês.

publicado por Rui Romão às 11:45
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

A Popularidade das Ultimas Rainhas de Portugal

As das rainhas a que me refiro no título são nem mais nem menos do que a última e a penúltima rainha de Portugal. Uma Italiana, outra francesa, mas ambas deixaram uma marca indelével na sociedade portuguesa da segunda metade do Século XIX e no início do século XX. No entanto, não podiam ser mais diferentes.

Dona Maria Pia era uma rainha perdulária, que não se coibia a gastos exacerbados na toilette, de pose senhorial, muito segura de si, mas com um temperamento impulsivo, que chegava a parecer mais uma cezarina do que uma rainha consorte. São históricas as palavras que dirigiu ao velho Duque de Saldanha, quando este cercou o Paço da Ajuda para intimar o Rei a demitir o ministério do seu arqui-rival Duque de Loulé, num golpe que ficou conhecido como a “Saldanhada”. Quando o velho lobo do Liberalismo foi apresentar, como era costume, os cumprimentos à Rainha, esta disse-lhe que se fosse ela o Rei, tê-lo-ia mandado fuzilar…

A prodigalidade da rainha foi sempre sustentada pela “boa vontade” de alguns argentários que então já prosperavam com o fomento do fontismo, com destaque para o Conde de Burnay, fundador, entre muitas outras empresas, da CUF, e cujo título se fica a dever aos sucessivos empréstimos que fazia à Rainha, nomeadamente para pagar os vestidos que usava uma única vez e depois doava ao Teatro São Carlos, para fazer parte do guarda-roupa dos espectáculos. Seria injusto não mencionar também a obra de caridade de Dona Maria Pia, na fundação de creches e no auxílio às vítimas de catástrofes.

Dona Amélia de Orleães, Princesa de França, Rainha de Portugal, bem podia ser caracterizada como o oposto da sua antecessora, não fosse ter sido também uma autêntica matriarca da caridade. Do seu legado fica a fundação das cozinhas económicas, o Instituto de Socorros a náufragos, o dispensário de Alcântara, entre outras obras de cariz cultural, como por exemplo a fundação do Museu dos Coches, que é ainda hoje, por larga margem, o mais visitado museu português.

A História de Dona Amélia não foi feliz. Casou-se em 1886 com D. Carlos, então Duque de Bragança, mas desse casamento só guarda más memórias. O Rei era conhecido pela fama de mulherengo, o que encheu de amargura o coração desta rainha que era, por influência literária, uma romântica, e que via os seus sonhos de um casamento feliz esbarrarem na frieza de um marido que via no consórcio um acto meramente político. Também D. Maria Pia sabia das aventuras do seu marido, D. Luís, reagindo com alguma virulência, mas que aparentemente não a mergulhavam na melancolia.

Este drama de Dª Amélia foi só o primeiro, e quem sabe o menos dramático enfrentou na sua vida. Assim que casou, a cidade de Paris quis homenageá-la, oferecendo-lhe uma réplica de prata de uma caravela portuguesa. Essa onda de entusiasmo que se fez sentir em França, levou ao exílio do seu pai, D. Luís Filipe, Conde de Paris, então pretendente ao trono pela linha da casa de Orleães.

Um ano depois, em 1887, deu à luz uma menina, Dona Mariana, que não resistiu muito tempo fora do ventre materno. Tinha então já um menino, D. Luís Filipe, nascido nesse mesmo ano, e D. Manuel, que viria a ser o último rei de Portugal, e que nasceu em Novembro de 1889, quando o seu pai era Rei há cerca de 1 mês.

De todos os dramas que viveu, o maior foi sem dúvida o que teve lugar no dia 1 de Fevereiro de 1908, quando o seu marido e o filho primogénito são assassinados em pleno Terreiro do Paço, sendo épica a sua atitude ao enfrentar os criminosos com um ramo de flores que lhe tinham dado quando desembarcou no Cais das Colunas. Esse drama marcou-a para sempre, embora lhe tenha dado a oportunidade, que talvez gostasse de ter noutras circunstâncias, para ser praticamente uma regente e ter o protagonismo político que o seu marido sempre lhe negou. Em Fevereiro de 1908 D. Manuel II era um jovem de 18 anos que se preparava para entrar para o curso de oficiais de Marinha, pelo que não tinha qualquer noção do trabalho que o esperava. Nessa situação difícil, a rainha mostrou a sua coragem e assumiu praticamente a condução dos destinos do país, o que lhe grangeou ódios de estimação, já antigos no seio dos republicanos.

Em 1910 veio o exílio, que ela conhecia tão bem, não fosse ela filha de um pretendente ao trono, que teve que sair de França porque a filha seria um dia rainha.

Mas porque motivo D. Maria Pia, perdulária, esbanjadora, de feitio sanguíneo, que terá dito um dia “que quem quer rainhas paga-as”, era imensamente popular até pelos republicanos (só ultrapassada pelo seu filho, Infante D. Afonso, que tinha fama de tonto) ao passo que a discreta Dª Amélia, que nunca manifestou qualquer sinal exterior de riqueza ou ostentação e que se dedicou à caridade toda a vida, era vilipendiada e odiada, principalmente pelas forças mais progressistas. A exacerbação era tanta que Eça de Queiroz foi imensamente criticado por ter escrito umas linhas elogiosas para com a Rainha…

É este o mote que justifica o título do post. Na minha opinião, a resposta está, nem mais nem menos, na História europeia do século XIX, nomeadamente na fase pós revolução francesa. Esquisito? Talvez. Mas vejamos a ascendência de ambas as soberanas, porque creio que foram estas famílias, com um papel relevantíssimo na França e na Itália pós napoleónica, que se encontra a chave para esse enigma neste nosso burgo lusitano.

Comecemos por Dª Maria Pia. Filha de Vítor Emanuel II, Rei da Sardenha e do Piemonte, foi o primeiro Rei de Itália. A Península Italiana no século XIX era um conjunto de Estados relativamente Independentes sem qualquer unidade política, dos quais se destacavam a Sardenha (a norte), os Estados Pontifícios (ao centro), e o Reino das Duas Sicilias (a sul), para além dos pequenos ducados. Digo que alguns apenas eram relativamente independentes, porque desde há muito que a influência austríaca, por força da política de consórcios, se fazia sentir. Foi precisamente por ai que se trilhou o caminho da Independência, começando por combater os Austríacos que ainda dominavam largas parcelas do território a norte, como Veneza e a Lombardia. Nos primórdios, essa guerra não correu bem, levando ao exílio do Rei Carlos Alberto, avô da Rainha Dª Maria Pia, que veio morrer no Porto, depois da derrota na batalha de Novara.

O seu filho, Vítor Emanuel II, aliando-se à França de Napoleão III (de que falaremos mais adiante), e apoiado por um grande valido, Cavour, haveria de retormar esta guerra saindo desta feita trinfante. A Sul, era outro heroi da independência que haveria de conquistar o Reino das Duas Sicilias, o famoso Garibaldi, dando um passo decisivo para a unidade Italiana. Mas para se completar este ramalhete faltavam os Estados Pontifícios, que era uma imensa parcela de território no centro de Itália, que estavam na posse da Santa Sé. E é aqui que, na minha opinião, reside a popularidade da Rainha Maria Pia. O exército de Victor Emanuel II invadiu militarmente estes territórios que se encontravam na soberania de Roma em 1870, levando o papa Pio IX, confinado ao Vaticano, a declarar-se prisioneiro. Este momento foi uma autêntica certidão de nascimento do Estado de Itália, e foi visto pelas forças progressistas como a vitória do mundo secular  sobre o clero, atingindo o seu máximo representante. Por isso Vitor Emanuel II, que era um monarca, sempre teve neste Portugal Liberal onde já se trilhavam os caminhos da República, uma imensa aura de prestígio que foi transferida para a sua filha, aquela menina que chegaria com apenas 14 anos a Portugal no dia 5 de Outubro de 1862 e que por cá ficaria precisamente 48 anos.

No caso de Dª Amélia, a história muda completamente de figura. A última raínha era filha do Conde de Paris, Luís Filipe de Orleães, pretendente do trono de França e neto do Rei seu homónimo, que reinou em França entre 1830 e 1848. A casa de Orleães era um ramo menor da Dinastia Borbon, que assumiu o trono após o desastrado reinado de Carlos X.

 Após a decapitação de Luís XVI  e do processo revolucionário liderado por Robespierre, que permitiu a ascensão de Napoleão Bonaparte, a França que se apresentou no Congresso de Viena de 1814/1815, após o fugaz regresso de Napoleão da Ilha de Santa Helena, restaurou a monarquia dos Borbons na figura de um irmão do rei decapitado, que reinou com o nome de Luís XVIII. Era um rei liberal, que percebeu que, apesar da restauração, os tempos tinham mudado e os poderes do Rei seriam necessariamente mais limitados. Foi um reinado relativamente pacífico, que não teve continuidade com o seu irmão e sucessor, Carlos X, que se comportou como um autêntico Rei Absoluto. Numa França ainda a fervilhar, houve um levantamento popular em 1830 e este este Rei foi obrigado a abdicar do trono. Abdicou num seu filho, mas que não foi reconhecido, passando a coroa para a casa de Orleães, na figura de Luís Filipe, Conde de Paris. Este monarca era de uma grande lucidez política, que se traduziu em algo que parece à primeira vista apenas uma questão de semântica, mas que foi determinante para se manter 18 anos no poder, apesar das constante revoltas das diferentes facções que se digladiavam no poder, desde legitimistas borbónicos, a napoleónicos e republicanos. Ele não se intitulou Rei de França, mas simplesmente Rei dos franceses. Ou seja, ele reconhecia que o poder emanava do Povo, de quem a Coroa dependia. No meio destes tumultos, a que se associou a burguesia que ia robustecendo o seu poder, foi afastado do trono em 1848, com a proclamação da República, que mais tarde degeneraria, por via plebiscitária, no Império de Napoleão III, abdicando o Conde de Paris no seu neto, também Luís Filipe, e que foi o pai da nossa Rainha Dona Amélia.

Ou seja, os republicanos portugueses viam D.Luís Filipe como um empecilho para as forças progressistas e republicanas, que tentavam tornar a França num estado avançado, e cuja luta os fascinava. Convém recordar que naquela altura a França era o farol do mundo. A intelectualidade portuguesa bebia avidamente tudo o que vinha de França, desde livros a jornais (com muitos dias de atraso), pelo que as revoltas francesas tinham uma repercussão enorme em Portugal, e seriam de certa forma inspiradoras para as lutas domésticas que travavam..

Com a República, após a queda de Luís Filipe, um sobrinho do antigo Imperador Napoleão Bonaparte apresentou-se a votos, ganhando a eleição por larga margem. Ao futuro Napoleão III, bem se podia aplicar aquela estrofe que Camões, jocosamente, dedica a Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque, Vice Rei da Índia, chamando-lhe avarento lisonjeiro, que apenas “doce sombras apresenta”. Ou seja, o seu único mérito era ser filho de um grande Homem, tal como Napoleão III.

No entanto, este sobrinho de Napoleão foi eleito presidente da República e mais tarde, por via plebiscitária, Imperador. Manteve o título até à Guerra Franco-prussiana de 1870, onde saiu derrotado e que culminou com a Comuna de Paris, no que foi o último sopro de chefia hereditária da História Francesa até à data.

A este processo assistiu o pai da Rainha Dª Amélia como um dos pretendentes ao trono, posição sempre ingrata, seja em república, seja em monarquia, mas ainda mais numa mescla de ambos os sistemas.

Evidentemente que a filha do Conde de Paris trazia consigo essa impopularidade, a quem os republicanos não poupavam nos epítetos, tentando passar a imagem de uma rainha beata, conservadora, saudosista do antigo regime, sem que nada se possa provar, a partir da sua conduta, do que lhe imputavam.

A simpatia que Dona Maria Pia granjeava, pela afronta do seu pai ao papa, antagonizava com a antipatia de Dª Amélia, filha do pretendente monárquico ao trono de França, país que se tornou definitivamente uma república em 1870, período em que o Partido Republicano Português começou a ganhar protagonismo político em Portugal.

No entanto, a dívida de gratidão que o país devia a Dª Amélia foi ainda paga em vida, com o apoio que o país lhe deu na França ocupada, mas sobretudo pela viagem que realizou ao nosso país no pós-guerra, onde visitou os locais que frequentou na sua juventude, e em que foi sempre acompanhada por banhos de multidão, cuja manifestação de afecto muito a sensibilizara.

No caso de Dª Maria Pia, que tal como a sua nora embarcou na Ericeira no dia 5 de Outubro de 1910, nunca chegou a regressar à sua pátria. Talvez um dia possam os seus despojos ocupar o lugar que lhe pertence em São Vicente de Fora.

Apesar de tudo o que referi sobre estas 2 mulheres, hoje ninguém discute que foram 2 grandes rainhas, a quem Portugal muito deve.

publicado por Rui Romão às 18:18
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Domingo, 29 de Janeiro de 2012

O Século XIX Visto do Velho Campo de Santana

Nesta fria e luminosa manhã de Domingo, fui dar um passeio na minha mota, como tantas vezes o faço aos Domingos. Ás primeiras horas da manhã consegue-se visitar uma cidade diferente daquela com que nos deparamos nos restantes dias da semana. A cidade está adormecida, sem a confusão costumeira, dando-se a conhecer, abrindo-se aos que a percorrem. Parei, não sei bem porquê, em frente ao Paço da Bemposta (ou da Rainha, são apenas dois nomes para designar o mesmo palácio). Fica ali à ilharga do Campo dos Mártires da Pátria, outro local com interesse histórico, e também não dista mais de 100 metros do Hospital dos Capuchos. Aparentemente, trata-se de uma descrição desconexa, sem fio condutor, como se me lembrasse de citar estes três lugares, qual taxista a dar indicações a um turista, mas não. Nesta pequena fracção de Lisboa, do tamanho de uma praça, consigo evocar a história do século XIX português, nos trilhos que nos guiaram ao Regime em que hoje vivemos.

Começando pelo Paço da Bemposta, foi residência da Rainha de Inglaterra, Dª Catarina, filha de D. João IV, que ali habitou quando regressou a Portugal, depois de enviuvar de Carlos II. Na sua folha de registo consta a proeza de ter sido responsável pela introdução do hábito de beber chá na corte Inglesa, costume que pegou de estaca entre os súbditos de sua magestade. Teve um papel extremamente importante na consolidação da independência portuguesa, pagando com os vexames que lhe foram impostos pelo marido, Carlos II, também ele um Rei que restaurou a monarquia depois da breve república de Cromwell, a consolidação da casa de Bragança no trono de Portugal. Foi regente durante o reinado do seu irmão, D. Pedro II, quando este andava pelas andanças da guerra de sucessão espanhola (um regimento português, comandado pelo Marquês de Minas, apoderou-se de Madrid, facto que pouco se conhece).

Desde 1640 até 1817, data que nos serve de charneira para entrarmos no campo Mártires da Pátria (então Campo de Santana), vivemos numa fase miserável até às pepitas de ouro começarem a chegar do Brasil para alimentar, sobretudo, o fausto de D. João V, ainda que sem grandes resultados práticos na administração do reino, que haveriam de ser impostos, de uma forma brutal, pelo Marquês de Pombal. Sebastião José, que governou como um autêntico déspota de 1756 a 1777, deixou um legado indelével de progresso económico, administrativo e social, embora à custa de repressão e violência, que sempre estiveram presentes em todas as suas grandes façanhas, valendo-lhe o epíteto, dado por Camilo Castelo Branco, de "Nero da Trafaria" (episódio dramático que de que falarei um dia).

Volvidos 12 anos após a queda de Pombal, dá-se em Paris a Tomada da Bastilha, ponto de partida para a revolução francesa e para o fim do Estado Absoluto. O processo não foi directo, passando por diferentes atapas desde os Estados Gerais até ao Império de Napoleão. Existiram coligações de paises que tentaram sufocar o processo revolucionário francês, de que Portugal fez parte, mas que foram todas derrotadas pelo poderoso exército tricolor. Em Portugal acentuava-se o estado de insanidade de Dª Maria I, que levou o príncipe D. João para a regência. Este ainda tentou protelar face à imposição francesa de bloqueio continental, que é uma forma de dizer "fechem os portos aos ingleses", exigência que nunca poderíamos cumprir, porque a Inglaterra era senhora dos mares e Portugal dependia do comércio com o Brasil. Fartos da complacência portuguesa, Napoleão enviou Junot para impôr pela força a sua lei, no que pode ser entendido como uma penitência pela nossa lealdade com a sua arqui-inimiga. Junot não encontrou resistência, entrando praticamente como um herói, mas não conseguindo alcançar o seu primeiro objectivo que era prender a família real, que já se encontrava a sair pela barra do Tejo a caminho do Brasil quando o seu exército entrou na capital portuguesa. Parece que ainda viram as naus ao longe, ficando daí, quem sabe, a expressão de "ficar a ver navios".

Depois dessa invasão, existiram mais duas, que acabaram por ser todas vencidas pelo exército anglo-luso, obrigando à retirada de Junot, Soult e Massena. Entretanto, no Rio, D. João VI proclamava a constituição do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, mas aqui na velha Europa exigia-se o seu regresso a Lisboa. Os Ingleses tinham tomado o lugar dos franceses e, na prática, eram eles quem governavam o pequeno rectângulo europeu. Em 1817 foi descoberta uma conspiração para os expulsar, que teria como líder um militar prestigiado: Gomes Freire de Andrade. O chefe deste golpe acabou enforcado em São Julião da Barra (o que foi uma humilhação, porque como militar ele achava (e bem) que, a ser condenado à morte, deveria ser por fuzilamento). Os restantes conspiradores foram enforcados naquele campo a que hoje chamamos de "Mártires da Pátria", aqui ao lado da Bemposta.

O Golpe de 1817 foi a antecâmara da bem-sucedida Revolução de 1820, que haveria de instaurar o movimento liberal no nosso país. Elegeram-se deputados para as corte constituintes que elaborariam a primeira Constituição Portuguesa, aprovada solenemente em 1822. Os liberais continuam a exigir o regresso do Rei  e o restabelecimento do Brasil ao estatuto de colónia. D. João VI, ao que parece contrariado, lá regressou com a família real, deixando apenas o seu filho (o futuro D. Pedro IV) num gesto de clarividência. Sabendo da exigência dos liberais, o monarca percebeu que o Brasil se tornaria independente, e assim, mal por mal, que fosse sob a égide de um príncipe português.

D. João VI chega em 1821 a Portugal e instala-se aqui na Bemposta, onde no ano seguinte juraria a constituição de 1822, apenas alguns dias depois de D. Pedro ter soltado o grito do Ipiranga.

A constituição de 1822 teve como inspiração a Constituição Espanhola de Cádis, que era bastante radical. Tinha por base o principio de Montesquieu de separação dos poderes, atribuindo ao monarca apenas o poder moderador. Imagine-se, num país onde havia gente que tinha vivido no tempo de Pombal, passar, de um dia para o outro, de um regime absolutista para outro em que o Rei era apenas um mero figurante. Usando uma analogia com as artes, era como se a personagem principal, a meio do espectáculo, passasse para a plateia, assumindo o lugar de mero espectador. 

Este regime não durou muito tempo porque no ano seguinte o Infante D. Miguel sublevou o exército e levou a cabo um golpe em Vila Franca, restaurando o absolutismo em Portugal. Este episódio ficou conhecido como a "Vilafrancada" e contou com o apoio de muitos liberais moderados (como era o caso de Palmela), que não estavam de acordo com o radicalismos dos "Vintistas". D. Miguel tornou-se comandante do Exército, o que lhe conferiu um poder quase absoluto. Não satisfeito, em Abril do ano seguintes levanta um cerco ao pai no Paço da Bemposta, mas desta vez o Rei não o apoia e com o auxílio das potências estrangeiras refugia-se num navio de Guerra e D. Miguel é obrigado a partir para o exílio. Foi a Abrilada.

D. João morre em 1826 e coloca-se a questão da sucessão. Seria D. Pedro, que era imperador do Brasil, ou D. Miguel, uma vez que o irmão era agora soberano de um país estrangeiro? D. Pedro era reconhecido como o legítimo rei pelos liberais, mas este abdicou da coroa na figura da sua filha, Maria da Glória, mas que deveria casar-se com D. Miguel, seu tio, no que foi uma tentativa de pacificação que não surtiu efeito. Paralelamente, o então imperador do Brasil outorga uma constituição muito mais moderada do que a de 1822, que ficaria conhecida como a Carta Constitucional, em torno da qual se arregimentariam os liberais moderados, conhecidos como cartistas.

D. Miguel, no exílio em Viena, concordou com o casamento e jurou a carta, na presença do Imperador Austríaco, mas chegado a Lisboa proclama-se Rei Absoluto. D. Pedro abdica da coroa brasileira noutro filho seu (futuro D. Pedro II) e vem para a ilha Terceira onde organiza uma armada que haveria de desembarcar no Mindelo em 1832, e que resistiu a um cerco de um ano na cidade do Porto. Num golpe de génio, O futuro Duque de Terceira, a bordo de uma armada comandada por Napier, numa tentativa para aliviar o cerco, dirige-se ao Algarve, a partir do qual, sem grande oposição, entra em Lisboa e decide a guerra a favor dos Liberais, obrigando, uma vez mais (e desta vez definitivamente), ao exílio de D. Miguel.

Com o triunfo dos liberais sobe ao trono D. Maria II, que teve que se bater, numa tarefa nem sempre bem conseguida, com a rivalidade entre cartistas (apoiantes da carta outorgada em 1826 por D. Pedro) e vintistas (ala mais radical, que defendiam a constituição de 1822). O pais só entrou nos eixos em 1851, com o golpe da regeneração de 1851 no Porto, abrindo estrada para os progressos no tempo do fontismo.

Os mais atentos (e que ainda se recordam do início deste texto) pensarão: o que é que o Hospital dos Capuchos tem a ver com esta história? A resposta é simples. Antes de ser Hospital, era um convento franciscano, que foi, como todos (a excepção dos femininos), extinto em 1834 na sequência da vitória do movimento liberal, no célebre decreto de Joaquim Augusto Aguiar, que por isso ganhou a alcunha de "mata-frades".

Não me vou alongar mais, até porque nesta cidade cada pedra tem uma história para contar, e daqui até Odivelas, onde moro, teria um tomo do tamanho dos Lusíadas. 

publicado por Rui Romão às 14:52
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